Um dos setores que mais reclamou da valorização do real, nos últimos anos, foi o coureiro calçadista, alegando a ocorrência de desemprego, fechamento de fábricas e prejuízo. O cenário atual, porém, é de um setor em crescimento, segundo Francisco Santos, presidente da Couromoda - 35 Feira Internacional de Calçados, que ocorre de 14 a 17 de janeiro no Parque Anhembi, em São Paulo.

De acordo com ele, os prejuízos amargados pelas empresas especializadas no sapato ''commodity'' estão sendo recuperados pela indústria que apostou na moda calçadista - o crescimento do segmento em 2007 foi de 11%. A Couromoda é considerada a maior feira do gênero na América Latina e conta este ano com 1.100 expositores, 3 mil marcas e compradores de 60 países. A seguir, as principais declarações de Santos.

Apesar das reclamações de alguns empresários, o setor está em ascensão?
Há dois pontos interessantes: em função da valorização excessiva do real, realmente perdemos uma faixa muito grande de clientes de calçados de volume, que é o chamado calçado popular produzido em grande escala para exportação, especificamente para os EUA. Essa faixa de produto nós perdemos para a China. Ao mesmo tempo, pela facilidade que temos de matéria-prima e em razão dos ''clusters'' estabelecidos em vários Estados, o nosso industrial se adaptou à nova situação e passou a produzir calçados de maior valor agregado. Trocamos de lugar na prateleira do cliente.

O que foi feito para mudar de prateleira?
O Brasil tem uma quantidade muito boa de mão-de-obra, tem uma oferta enorme de couro - do qual somos um dos maiores produtores mundiais, e o que aconteceu é que nos últimos seis, sete anos, o Brasil está vendendo menores quantidades de um produto com maior valor agregado e de preço mais elevado. Hoje, você encontra em algumas vitrines internacionais sapatos brasileiros sendo vendidos acima de U$ 200. Estamos exportando calçados por até U$ 60 de custo no Brasil. Isso é uma coisa que não acontecia até seis anos atrás, era algo inconcebível. Ainda vendemos um bom volume de sapato a preço popular, principalmente na América Latina, mas aos poucos nós estamos tomando uma fatia de mercado que era da Espanha, da Itália, e alcançando mais de 100 países do mundo, e praticamente toda a Europa.

Como era o mercado que o Brasil perdeu?
As empresas que desempregaram nos últimos dois anos, notadamente no Rio Grande do Sul e em Franca (SP), não vendiam no mercado doméstico. Elas só vendiam para um cliente nos EUA, do qual recebiam uma modelagem e um preço mais ou menos pré-estabelecido. Este tipo de produção, que era uma espécie de commodity, hoje não é mais feito no Brasil - ele definitivamente se mudou para a Ásia. Em grande parte, essa produção era composta por sandálias de couro de preço popular. Atualmente, estamos exportando sapato com um conteúdo de moda elevado, que acompanha as tendências internacionais, e com condições de entregar qualquer volume em qualquer lugar do planeta.

Então, o câmbio desfavorável acabou qualificando a produção?
Esse problema do câmbio forçou nosso industrial a se modernizar mais rapidamente, forçou o salto de qualidade. Mas poderíamos, é bom que se diga, ter mantido as duas coisas. O chinês, por exemplo, faz volume e também sapatos de excelente qualidade.

Hoje, existe uma moda brasileira de calçados?
Não, atualmente a moda não tem a cara de um país - nem francesa, nem italiana, nem inglesa. Hoje existe uma moda global que nasce no circuito europeu (Paris, Milão e Londres), e depois vai para o resto do mundo. A tendência está muito globalizada. O que o Brasil tem feito muito bem é acompanhar de perto e desenvolver coleções absolutamente de acordo com a moda internacional.

Qual o impacto do setor coureiro calçadista na economia nacional?
Do couro ao varejo, considerando os 40 mil pontos de revenda, componentes, curtume, a cadeia inteira emprega aproximadamente 1 milhão de pessoas e tem um PIB de R$ 50 bilhões. O mercado doméstico é inteiramente abastecido pela indústria brasileira. Para alcançar esse patamar, a indústria se agilizou e criou um marketing extremamente agressivo. Além disso, a moda está muito democratizada, hoje as classes que compram sapatos por preços mais populares também exigem conteúdo de moda. Fora do sudeste asitático, não existe mais nenhum país preparado como o Brasil.

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