MUDANÇA DE PERFIL - Aumenta número de jovens que vivem nas ruas
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segunda-feira, 08 de junho de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Basta caminhar um pouco pelas ruas das principais cidades para encontrarmos pessoas pedindo dinheiro, comida, vendendo pequenas coisas para sobreviver. As construções abandonadas acabam se transformando em moradia para muitas dessas pessoas, e também para usuários de drogas.
Adriana da Cruz Barrozo é psicóloga do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas I), em Londrina, e comenta nesta entrevista quem são esses moradores de rua e como a sociedade colabora para a manutenção desse quadro.
Há um perfil dos moradores de rua?
No geral são pessoas financeiramente carentes, com algum comprometimento na saúde mental, seja alcoolismo, uso abusivo de drogas ou problemas psiquiátricos. Há também uma destituição familiar, um rompimento de vínculo. Existem questões sociais também, como o desemprego. Percebemos um limiar à frustração muito baixo, uma dificuldade de lidar com as dificuldades do dia a dia. Algumas pessoas estão há um tempo em superação, mas numa primeira dificuldade retornam para a rua. Também encontramos moradores de mocós que têm renda para alugar um lugar para ficar, mas não conseguem administrar isso e então preferem ficar nessa condição.
Então existem pessoas que ficam na rua por opção?
Sim. Vamos trabalhar sempre no foco da reflexão dessa pessoa por um novo projeto de vida. Para ele refletir a sua condição e o porquê da sua escolha. Temos hoje um serviço já consolidado, uma rede de abrigos, uma rede de atendimento na saúde, em todos os aspectos. Temos casos em que as pessoas insistem nessa permanência e deixam muito claro que não querem sair dessa condição.
O que elas alegam?
O descompromisso com horários, com algumas responsabilidades. A dependência química é muito intensa e em um abrigo a pessoa não pode levar bebida, deve cumprir horário. A rua dá essa liberdade. Eles também dizem que comida não falta, que a cidade acaba sendo generosa nesse sentido.
Então, de uma certa forma a sociedade é responsável por essas pessoas ficarem nas ruas?
O que comprovamos é que onde se ganha muito facilmente, os grupos vão se constituindo. Se eu vou numa casa e eu ganho, no dia seguinte eu volto e ganho de novo, então eu já conto para outra pessoa que ali ganha-se as coisas, e aí o grupo vai se formando. Temos situações em que existe um grupo instalado com sofá, fogueira e panela. Você faz toda uma articulação com a CMTU e limpa o local. Na outra semana tem sofá, cobertor, panelas. Alguém deu aquilo. A comunidade que dá é a mesma que solicita (a retirada). Temos trabalhado em um foco muito polêmico, a esmola. Ao invés de dar na rua, as pessoas devem destinar para as instituições.
Está mudando o perfil dos moradores de rua?
Mudou bastante em poucos anos. Nosso maior número de atendimento é relacionado ao envelhecimento da população. São muitos idosos com problema de saúde que saem para uma consulta e se perdem, ou têm comprometimento mental. Alcoolista que bebe e cai na calçada, mas possui sua família, não é morador de rua.
Um perfil que agora nos chama a atenção são os jovens, usuários de drogas, que possuem família que não dá mais conta do envolvimento com o vício. É aquele jovem que começa a roubar em casa, na vizinhança, e a ficar em situação de rua. Este é um desafio para as políticas, porque são pessoas que já estão envolvidas com a criminalidade, com o crack. Isso é um dificultador.
Há poucos anos a gente lidava na rua com tinner e com a cola, hoje não vemos mais. O morador de rua, aquele que consome álcool, possui uma profissão, carteira assinada, às vezes teve um casamento. O uso do crack limita bastante a intervenção. Esses adolescentes estão usando droga desde muito cedo, têm baixíssima escolaridade, sem histórico de valores. Nós não temos muito por onde resgatar.


