MUDANÇA DE PARADIGMA - Empreendedorismo na sala de aula
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Paula Costa Bonini<BR>Reportagem Local 
''O empreendedorismo é a principal ferramenta para o crescimento econômico e para a justiça social. É a capacidade de transformar o mundo''. A afirmação é de Fernando Dolabela, especialista e autor de nove livros sobre o tema. Ele é um dos maiores defensores do programa ''Pedagogia Empreendedora'', que foi lançado ontem em Londrina.
O objetivo é capacitar professores da rede municipal de ensino para incluir discussões sobre a importância do empreendedorismo em diversas atividades didáticas. ''A cultura empreendedora tem que ser estimulada desde cedo nas crianças. Eu proponho que seja uma disciplina'', defende Dolabela.
Ele ressalta que a escola e a família não incentivam o potencial empreendedor dos estudantes, o que prejudica o desenvolvimento social e econômico do país. Nesta entrevista à FOLHA, ele dá dicas de como os pais podem estimular os filhos a tornarem-se empreendedores. E ainda lamenta a corrida dos jovens por cargos por meio de concursos. ''Um país que inspira essa ideia na juventude está jogando seus principais recursos fora. Não que o serviço público não mereça os melhores cérebros, mas os jovens buscam o concurso para aposentar cedo.'', alfineta.
O senhor defende a Pedagogia Empreendedora. Qual é a importância dessa visão de mundo para o desenvolvimento do País?
O emprendedorismo é a capacidade de transformar o mundo. É a principal ferramenta para o crescimento econômico e para a justiça social. Muita gente acha que o empreendedorismo é um modismo, uma ideia que surgiu há pouco tempo. Mas isso não corresponde com a realidade. O empreendedorismo é tão antigo quanto a história da civilização humana. No entanto, não se percebia o fenômeno com muita clareza. É importante ressaltar que trata-se de um fenômeno cultural e não cognitivo. A cultura empreendedora tem que ser estimulada desde cedo nas crianças, de preferência na educação infantil.
Atualmente, a nossa juventude quer passar em concurso público e buscar a estabilidade. Isso não é empreendedorismo. Um país que inspira essa ideia na juventude está jogando seus principais recursos fora. Não que o serviço público não mereça os melhores cérebros, mas esses jovens querem entrar no serviço público com o objetivo de se aposentar cedo.
O que falta para que as escolas e as universidades brasileiras ofereçam a educação empreendedora?
A educação brasileira não dá atenção à atividade empreendedora. Não há um compromisso do sistema educacional com o desenvolvimento do país e com a justiça social. Isso acontece porque a educação empreendedora é um projeto que não dá voto, pois demanda um longo processo. É preciso encontrar políticos que tenham uma consciência social maior e que estejam desprendidos do imediatismo. Só assim as coisas vão começar a funcionar. Mas, por incrível que pareça, está havendo manifestações relevantes de algumas prefeituras, que estão começando a entender que a geração de riqueza vem do empreendedorismo. A sociedade civil tem que montar empresas para que possam gerar o Produto Interno Bruto (PIB).
Os currículos escolares deveriam incluir o empreendorismo na grade de disciplinas?
Sim. Eu proponho que o empreendedorismo seja uma disciplina, assim como geografia, história, matemática etc. Mas depende da escola. Também é possível implementar o empreendedorismo de forma transversal. O professor pode discutir o tema com os alunos ao tratar de outros conteúdos. Desde os 4 anos a criança já deve aprender sobre empreendedorismo, ou até antes.
Qualquer pessoa pode desenvolver um potencial empreendedor?
Todos nós nascemos com capacidade empreendedora. A diferença é que ela pode ser inibida ou estimulada. Todas as pessoas têm o potencial da inovação, da transformação, da quebra de paradigmas e têm a capacidade de assumir riscos. O empreendedor é a pessoa que concebe o futuro e o transforma em realidade. É alguém capaz de seguir suas emoções.
Algumas culturas estimulam o desenvolvimento desse potencial e outras inibem. O Brasil, por exemplo, inibe mais do que estimula, mas percebe-se que em grande parte do mundo é assim. A escola e a família funcionam como grandes limitadores desse potencial.
E de que forma a família pode estimular esse potencial?
Os pais devem incentivar a criatividade, a transgressão de padrões. Tudo o que se vê em termos de evolução acontece devido à quebra de padrões. Quando isso não acontece, há estagnação. É preciso estimular o filho a ser um rebelde propositivo, que oferece algo novo e diferente ao mundo.


