Mudança de mentalidade
Chloris Casagrande Justen
Filosofias, as mais diversas, têm marcado a pedagogia com princípios ideológicos que definem propostas político-sociais, assim como as religiões têm firmado seus princípios pedagógicos, não só na proposta política, como no amor ao semelhante, o que reforça a ação educacional, tanto entre os seus componentes quanto no propósito da humanização do homem.
Com as rápidas e intensas mudanças sociais, destacando-se a tendência universal da democratização dos países, dos processos sociais e dos relacionamentos, as filosofias educacionais enfrentam o desafio de revisar suas propostas, não só quanto aos fins da educação, mas também quanto ao tipo de homem que as sociedades modernas exigem. Tão indispensável quanto detectar as características necessárias ao homem moderno, é o estudo das tendências da sociedade, entre outras variáveis. Nesse contexto - o homem, sociedade, tendências e propostas filosóficas -, é que se situam os estudos sobre os fins da educação e os processos educacionais adequados. Dada a multiplicidade contextual da mudança, que inclui a velocidade das transformações interferindo na ética e no comportamento, a tarefa dos pensadores na educação não fugirá, por certo, de novos paradigmas para a educação, da incorporação de diferentes linguagens, das mais recentes tecnologias da informática e da comunicação, já que as descobertas e as invenções determinam a excelência tecnológica.
A democracia é uma tendência tão marcante que passa a construir força vital, permanente e transformadora, marcando o homem moderno, cuja universalidade cada vez mais se impõe, impulsionada, inclusive, pelo acelerado desvendar do avanço científico, que suprime espaços e coloca a humanidade em uma aldeia, dando ao mundo características sempre mais globalizadas.
Sobre esse homem moderno pesa, cada vez mais, a exigência de um desempenho social solidário e ético, caracterizado por uma crescente preocupação com o meio ambiente, com uma participação efetiva na união de esforços para a convivência pacífica entre os povos e para a urgente preservação do planeta. Dele se exige a capacidade para viver em comunidade, com deveres e direitos iguais entre todos, mantendo, criando reformulando estruturas sociais que beneficiem o indivíduo e a sociedade. A esse homem, conviva de uma orquestração cada vez mais complexa, será indispensável o atributo de cidadão, com atualizações permanentes e conceituações amplas e cientificamente corretas que o transformem em cidadão do mundo.
A cidadania é a condição que se instala com a vivência democrática, com a indispensável compreensão das regras do jogo, onde os direitos e a responsabilidade social constituem tarefa da educação e prerrogativas do cidadão educado.
Norberto Bobbio, ‘‘um dos mais vigorosos pensadores políticos da atualidade’’, nos diz, em seu livro ‘‘O futuro da Democracia’’: ‘‘ A educação para a democracia nada mais é do que a vivência constante dos valores e ideais democráticos, como a não-violência, a renovação através do debate e das idéias e da mudança de mentalidades, o ideal da irmandade que une todos os homens em um destino comum’’ e mais, adiante: ‘‘com essa vivência, a educação para a democracia surgiria no próprio exercício da prática democrática’’.
O conteúdo de informações do currículo educacional é tão importante para o equilíbrio da sociedade quanto a consciência da finalidade formativa do processo educacional e o estimula à vivência de princípios democráticos , tais como o respeito às minorias, a legitimidade do dissenso, a autonomia das instituições responsáveis pela organicidade do estado. Estes princípios, entre outros componentes da cidadania, asseguram a democracia.
Que a democracia é o governo do povo pelo povo, todos os mais letrados estão cientes. Que os valores democráticos incluem a não-violência, a compreensão, a renovação de mentalidades e de modos de viver, a irmandade, nem todos sabem. Que o comportamento democrático ou desempenho do cidadão, caracteriza-se por responsabilidade, interesse pelos outros, participação, respeito à diversidade, cooperação, criatividade, comprometimento, poucos demonstram saber. Que a luta pela dignidade e por melhores condições individuais e sociais é um dever politicamente correto, muitos nem querem saber. Esperemos que, com extrema urgência, a maioria compreenda que a cidadania só se instala quando, no governo do povo pelo povo, qualquer patamar que ocupe, o cidadão cumpre corretamente os seus deveres, faz valer os seus direitos, respeita as leis e a ética, assumindo seu papel social e político, ciente da importância de cada um e de todos na comunidade. Através da vivência e do costume, a educação para a cidadania, concorrerá para formar o cidadão consciente, capaz de concorrer para que seu país atinja o estado de direito, posicionando-se condignamente entre as nações desenvolvidas
Não sobra lembrarmos Immanuel Kant, citato por Bobbio: ‘‘O homem só pode ser homem através da educação. Ele não é outra coisa a não ser produto de sua educação. E cabe mencionar que o homem só pode ser educado por homens que, por vez foram educados.
- CHLORIS CASAGRANDE JUSTEN é presidente do Centro Paranaense Feminino de Cultura, membro da Academia Paranaense de Letras e do DP da Associação dos Magistrados do Paraná.

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