MUDANÇA DE FOCO - 'Inovação é a única fonte sustentável de competividade'
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de abril de 2011
<br> Mariana Fabre <br> Reportagem Local 
Um dos principais fatores que determinam a sobrevivência empresarial, a inovação exige que empresários e instituições governamentais criem o mercado e não apenas o acompanhem.
A avaliação é do engenheiro e cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R.), Silvio Meira, esteve semana passada em Londrina para participar do Integra 2011 - Congresso Paranaense de Integração Empresa, Instituições de Ciência, Tecnologia & Inovação e Governo.
Segundo Meira, negócios que não acompanham a evolução do mercado corre o risco de não sobreviver. Acompanhar as mudanças, aponta ele, é o mínimo que se espera dos empreendedores. O caminho do sucesso pode ser mais curto para quem não espera acontecer e cria novos mercados.
Por isso, ter iniciativa para criar e aproveitar oportunidades é uma exigência atual. Para colocar as ideias em prática, no entanto, é preciso coragem. Quem tem medo de arriscar pode ficar para trás. ''Do ponto de vista da empresa, o maior risco é não inovar'', alerta Silvio Meira, que é cientista-chefe de uma instituição que, por meio da tecnologia, atua na identificação de problemas e no planejamento e implementação de soluções.
A inovação é considerada um das chaves para a sobrevivência das empresas. As empresas precisam se adequar à necessidade de inovação sob o risco de perder competitividade?
O problema que estamos vivendo é que em quase todos os mercados, dos tradicionais aos mais dinâmicos, a gente passou a experimentar uma velocidade de mudança que é talvez inédita na história da humanidade. Se o mundo, do lado de fora da sua empresa, se modifica numa velocidade maior do que dentro da empresa, significa que você está se tornando cada vez menos competitivo. É por isso que se costuma dizer que inovação é a única fonte sustentável de competitividade.
Inovação a gente pode definir como um processo de mudança de comportamento em agentes do mercado, tanto em fornecedores como EM clientes ou usuários. Na hora que eu não consigo achar você na internet, significa que você saiu do meu horizonte de possíveis fornecedores.
O investimento em inovação implica em probabilidade de insucesso para as empresas. Os governos devem dividir o risco com os empresários?
Do ponto de vista da empresa, o maior risco é não inovar. No mínimo, eu acompanho o mercado, mas no limite correto eu crio o mercado. Acompanhar talvez seja tarde demais. O problema fundamental é como eu crio, mantenho e evoluo o mercado junto com os meus colaboradores, meus clientes e minha rede de valores.
Países como o Brasil têm deixado de aproveitar um potencial gigantesco de inovação a partir do mercado interno. Em países como China, Japão, Taiwan, Inglaterra e principalmente Estados Unidos, os governos têm políticas contínuas de inovação. Inovação é um negócio inerentemente arriscado porque você constrói o futuro a partir da concretização da imaginação.
Esforços estratégicos de nações para resolver determinados tipos de problema mitigam de uma forma muito radical o custo da inovação. Porque esse é um custo social. Em sua vasta maioria, o custo que chamamos de pesquisa básica, de desenvolvimento experimental, do primeiro ataque ao mercado, em qualquer cenário, é bancado pelo governo. Esse é o caso da internet, por exemplo.
Falando em internet, estima-se que ao conectar 10% dos brasileiros à rede mundial de computadores há um aumento de 1% no PIB. Qual a relação entre conectividade e ganho econômico?
Você diminui o atrito transacional. Na hora que estou sentado em Recife e posso comprar um vaporizador de ambiente em Alto Paraíso, no Paraná, pela internet, é como se Alto Paraíso fizesse parte do mercado do Recife. Mercado são conversações e na hora que essa conversação começa a funcionar você vai comprar coisas que não compraria antes, ao mesmo tempo que vai fornecer coisas que não forneceria antes.
O que cria uma sociedade da informação, uma economia da conectividade, é o fato do custo das transações informacionais ter se tornado marginal.
Qual o papel das redes sociais nesse contexto?
As redes sempre foram sociais. De uns cinco anos para cá a gente criou infraestruturas de informação que servem de base para redes sociais virtuais, e aí, de repente, o mundo inteiro mudou. Como é que você lançaria um jogo que tem 290 mil usuários no primeiro dia? Na hora que você faz isso, cria mecanismos de explosão combinatória. Coisas novas que têm impacto no mercado são inovações. Se não emitir nota fiscal não é inovação. Não necessariamente estamos falando de aumento de consumo, estamos falando em melhorar a infraestrutura dos contextos onde a gente consome.
O excesso de informações disponíveis na internet é necessariamente benéfico? Pode gerar falta de conhecimento aprofundado?
Não tem excesso de informação, tem filtro ruim. Só dificulta para quem não tem estrutura de aprendizado e para quem não tem senso crítico. As pessoas perderam a capacidade de aprender independentemente. Num ambiente de excesso de informação você não pode crer piamente em ninguém. Tem que ser um agente independente, tem que ter uma plataforma pessoal de aprendizado.
O senhor defende que a forma de aprender está diferente. A educação voltada para a tecnologia deve começar desde a infância ou isso já está acontecendo?
Em relação à educação voltada para a tecnologia, ou à educação em cima de plataformas tecnológicas, a maioria das crianças quando chega à escola hoje já dominou uma parte significativa desse negócio. Isso é parte de um processo sociocultural de aprendizado de plataformas que é totalmente independente da escola. A escola foi ultrapassada. É o que sempre acontece quando você tem rupturas na dinâmica evolutiva do que está disponível na sociedade. A formação de senso crítico vai acontecer naturalmente.
O que é e como funciona o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R.)?
O C.E.S.A.R. é uma instituição privada, sem fins lucrativos, autossustentável, de inovação e tecnologia da informação e comunicação. Seu papel é realizar processos autossustentáveis de conhecimento em tecnologia da informação entre o ambiente acadêmico e a sociedade, mas centrado nos problemas que estão na sociedade e não nas soluções que estão no ambiente acadêmico. O C.E.S.A.R. tenta descobrir problemas para resolver. Como, por exemplo, melhorar a interface de uso da televisão. Nos televisores modernos, 90% dos comandos não são usados. Ou como instrumentar um helicóptero não tripulado para supervisionar linhas de alta tensão. A gente vai, literalmente, ao mercado adquirir especificações de problemas complexos e vende expertise, vende competência para resolver problemas. Na realidade, em certos casos, a gente vende competência para descobrir problemas.


