Mudança de estratégia
Alertados pelo inesperado desfecho do caso Ronaldinho, que assinou um pré-contrato com o PSG da França e garante que vai se transferir para o clube europeu sem que o Grêmio receba um tostão sequer por seu passe, os clubes brasileiros formaram grupos de trabalho para rever suas estratégias.
A primeira decisão será encerrar as atividades de suas escolinhas de futebol e desativar todos os departamentos destinados à descoberta e formação de novos atletas. As despesas desses departamentos, antes compensadas pela revelação de craques para atuarem na equipe principal ou mesmo para serem negociados com outros clubes, gerando renda, deixam de ser economicamente possíveis.
Em seu lugar, as equipes estruturarão escolinhas de olheiros e de aliciadores. Os primeiros, que já existem, continuarão com sua tarefa de identificar novos talentos em equipes alheias, de preferência clubes pequenos do interior ou de poucas condições financeiras.
As características desses funcionários não será o talento com a bola nem a paixão por jogar futebol, mas uma alta capacidade de avaliar técnica e morfologicamente os jogadores visados. Eles serão recrutados não nas vilas pobres ou nos campos de pelada da periferia, mas nas escolas de Medicina e Veterinária. Experiência como jurado em feiras agropecuárias será bem vinda. Como literatura de apoio didático, será usada uma importante publicação européia do início do século passado, intitulada A importância da espessura das canelas no bom desempenho dos escravos.
Feita a identificação pelos olheiros, seriam acionados os aliciadores. Vestidos com ternos risca-de-giz e lenço de seda no bolso do paletó, sua principal tarefa será convencer a mãe, os irmãos e, se possível, também o atleta pretendido, de que ele receberá não apenas um bom salário, mas também terá uma infinidade de vantagens que seu atual clube não lhe proporciona.
Assim, as escolinhas de aliciadores darão preferência para compor seus quadros pessoas com raro talento de convencimento, como vendedores de consórcio ou traficantes de drogas de porta de escola. Será desejável, também, um profundo conhecimento das atrações turísticas da cidade, como museus, restaurantes típicos, boates de pagode e prostíbulos de luxo.
Esses grupos de trabalho fazem projeções de que, num futuro próximo, não haverá mais a separação dos clubes por divisões, mas por estágio em sua capacidade de aliciamento. Existirá o grupo de elite do futebol mundial, formado pelos clubes com grande poder econômico e ótimas atrações turísticas, que fariam os grandes espetáculos para o público e para a TV.
Haverá um grupo intermediário, que terá em suas equipes bons jogadores ainda não aliciados por falta de vagas nos clubes grandes. Esses jogadores não terão salários pois os clubes não terão a renda das TVs nem da venda dos craques revelados. Eles serão sustentados por um novo braço da Máfia que manterá contratos verbais, garantindo à Cosa Nostra o maior percentual das luvas e dos salários que o jogador vier a conseguir.
E haverá os clubes de várzea, sustentados por rifas e galetos da igreja, onde os jogadores que não interessam aos olheiros nem aos aliciadores jogarão por amor ao futebol ou pela falta de outro emprego, em troca de um prato de comida no final do dia.
Mas a principal revolução, prevêem esses grupos de trabalho, é que os grandes craques que serão disputados a peso de ouro pelos clubes ricos não serão mais os jogadores, mas os olheiros e os aliciadores. Assim, os burocratas pernas-de-pau que nunca conseguiram sucesso como jogadores terão a chance de ser os craques mais importantes do futebol.
A Juventus e o Manchester United disputarão a peso de ouro os passes do Águia o astro de olho clínico e faro infalível e do Bom de Lábia o mestre da lorota e da perfídia. Eles terão contratos multimilionários, limusines, seguranças e, claro, as mulheres mais belas do planeta. Que o Águia descobrirá e o Bom de Lábia arrastará para a cama.
E o grande estrategista dessa revolução, acabando com as categorias de base, terá garantido que, no futuro, jamais surgirá um craque brasileiro que ameace sua condição de rei.
- KLEBER BOELTER é engenheiro, empresário e escritor em Porto Alegre
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