Com o encerramento da Copa do Mundo da Rússia, no último domingo (15), tivemos o penúltimo capítulo de uma tendência do esporte mundial que parece estar chegando ao fim: a realização de grandes eventos esportivos internacionais em países sem tradição de organizar essas competições. Desde o final da década passada, tivemos Mundiais de futebol realizados na África do Sul (2010) e no Brasil (2014), além da Rússia, e Olimpíadas de Verão sediadas por China (2008) e Brasil (2016).

O último capítulo dessa onda aparenta ser a Copa do Mundo do Catar, em 2022. Depois disso, o Mundial de futebol de 2026 será sediado em conjunto por Estados Unidos, Canadá e México, três países que, embora de indicadores socioeconômicos diferentes, já estão acostumados a receber eventos com esse nível de gigantismo. Nos Jogos Olímpicos de Verão, a organização volta a mãos calejadas já em 2020, quando Tóquio será a sede. Em 2024, será a vez de Paris, e em 2028, de Los Angeles.

Embora todos os grandes eventos esportivos sediados por países sem tradição tenham ocorrido sem maiores transtornos, a conta ficou cara para todos. As sedes embasbacantes dos Jogos de Pequim-2008, como o estádio olímpico apelidado Ninho do Pássaro e o Cubo d'Água, viraram elefantes brancos, assim como boa parte das arenas das Copas da África do Sul e do Brasil e do Rio-2016. Os dois eventos brasileiros tiveram atrasos e denúncias de superfaturamento nas obras, assim como a Copa da Rússia.

Os Jogos do Rio e a Copa sul-africana também foram manchados por indícios de compra de votos para saírem vencedores nas eleições para escolha das sedes, assim como o Mundial do Catar, também denunciado por suposto trabalho escravo na construção dos estádios. Na Rússia, o vexame extra foi o esquema de doping de atletas do País nos Jogos de Inverno de Sóchi-2014, retratado no documentário "Ícaro", vencedor do Oscar de melhor documentário este ano.

É claro que não é desejável que a mesma meia dúzia de países desenvolvidos sempre receba os megaeventos esportivos, mas estes se tornaram tão caros e estão relacionados a tantos interesses que em países com menos tradição democrática e de transparência o risco de desmandos é evidentemente maior. Além disso, causa revolta na população que bilhões sejam investidos em instalações esportivas enquanto educação, saúde e segurança sofrem com o subfinanciamento.

É de se lamentar que a Copa do Mundo e as Olimpíadas tenham sido usados nos últimos anos para atender aos desejos da vaidade de governantes corruptos e/ou violadores de direitos humanos. Com o processo de escolha das sedes sofrendo uma mudança de eixo, é de se perguntar se países sem know-how voltarão a ser selecionados com a mesma profusão ou se precisarão se desenvolver efetivamente antes de voltarem a ser palco das maiores disputas do esporte mundial.

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