Árabes residentes no Brasil, principalmente muçulmanos, têm sofrido constrangimentos e humilhações, em decorrência dos ataques suicidas desfechados contra Nova York. Ainda que, dentre as hipóteses possíveis, venha a confirmar-se a autoria dos atentados por algum grupo militar árabe, nenhuma justificativa existe para que árabes em geral sofram represálias e muito menos que sejam atingidos árabes, muçulmanos ou não, residentes no Brasil.
Isto me lembra humilhações que minha própria família, de origem germânica, sofreu, durante a Segunda Guerra Mundial. Nada tínhamos a ver com o nazismo, éramos simples alemães ou descendentes de alemães, mas o preconceito e o ódio atingiram injustamente meus familiares e outros imigrantes alemães e italianos, já de muito incorporados à vida e à luta do povo brasileiro.
Com os muçulmanos está agora acontecendo o mesmo. Imigrantes que já vivem no Brasil, alguns há muito tempo, inclusive com filhos brasileiros, são vítimas da insânia e da desinformação. Não existe qualquer justificativa para esta atitude, como não existe qualquer motivo para discriminações contra os muçulmanos. O islamismo ensina que o homem é ''vigário (representante) de Deus'', conforme se lê no Corão.
Observa Jean-François Collange, um especialista em estudos sobre religiões, que a igualdade, a dignidade e a liberdade inerentes a todos os seres não podem ser contestadas por qualquer instância humana, segundo o ensinamento islâmico.
O islamismo prescreve a fraternidade, adota a idéia da universalidade do gênero humano e de sua origem comum; ensina a solidariedade para com os órfãos, os pobres, os viajantes, os mendigos, os homens fracos, as mulheres e as crianças; define a supremacia da Justiça acima de quaisquer considerações; prega a libertação dos escravos; proclama a liberdade religiosa e o direito à educação; condena a opressão e estatui o direito de rebelar-se contra ela; estabelece a inviolabilidade da casa.
Há uma semelhança estreita entre a visão islâmica do ser humano (homem, vigário de Deus), a idéia cristã ensinada por Paulo (homem, templo de Deus) e a idéia de homem como imagem de Deus (Gênesis, livro sagrado de judeus e cristãos). Mohammed Ferjani, outro brilhante autor, nega que o islamismo seja uma religião obtusa, que impeça seus fiéis de ingressar na modernidade. Mostra como é preconceituosa a tese de que caiba ao Ocidente a missão civilizadora.
Participei, durante o período de meu pós-doutoramento na França, do 2º Colóquio Internacional Islâmico-Cristão. Nessa ocasião, pude partilhar com crentes muçulmanos um projeto de mundo baseado na liberdade, na solidariedade e na Justiça. Não se tratou apenas de um intercâmbio intelectual mas de algo muito mais profundo, radicado no afeto, na compreensão recíproca, na comunhão.
A meu ver, esse mundo que, naqueles três dias, centenas de homens e mulheres de boa vontade supuseram possível construir, a partir do respeito mútuo e do diálogo, está bem próximo da utopia humanista redentora do mundo.
Como cristão, eu creio que o anúncio radical dessa utopia fez-se verbo em Jesus Cristo. Mas respeito que crentes de outras crenças ou mesmo não-crentes tenham uma fé ou uma visão filosófica diferente da minha. Sobretudo creio que podemos trabalhar juntos por um mundo melhor, se a reverência à dignidade humana é o traço de união de nosso projeto de história.
- JOÃO BAPTISTA HERKENHOFF é escritor e membro da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória
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