MST, reforma agrária e demagogia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de agosto de 1997
Sigeyuki Ishii 
A região de Presidente Prudente, de Terra do Boi e Capital Nacional do Cavalo, está se transformando na Terra dos Sem Terra, com tudo o que de mais pejorativo e prejudicial que isso acarreta, pois de há muito, a questão deixou de ser restrita ao Pontal do Paranapanema, já que, com o apoio incondicional da mídia embravecida, o MST aumenta cada vez mais sua área de abrangência.
O que acontece aqui na nossa região é um verdadeiro absurdo e está na hora de assumirmos que a pecuária é um segmento econômico de suma importância ou então que aqueles que dizem o contrário fiquem proibidos de comer carne de agora em diante.
Porque aquele que diz que pastagem oferece emprego a poucas pessoas, ou por má informação ou má intenção não sabe que 300 bois abatidos oferecem empregos diretos e indiretos a 2.757 pessoas. É só seguir a cadeia da produção, onde, além dos empregados das fazendas, entram os caminhoneiros e ajudantes que conduzem o gado, os empregados dos frigoríficos, dos açougues, dos curtumes, das indústrias e lojas de calçados, das lojas agropecuárias, das empresas de nutrientes e medicamentos do setor, dos laboratórios e demais indústrias de processamento dos subprodutos. Enfim, uma série de atividades dependentes da pecuária, sem contar ainda a indústria do cavalo, consequência direta da criação de gado, que fez de Presidente Prudente o pólo de irradiação da criação do cavalo Quarto-de-Milha, que espalhou pelo Brasil as provas de Laço, o Rodeio completo, e até a prova de Apartação, retratada no recente filme Buena Sorte, uma das várias modalidades do esporte que começou aqui. Mas a mídia só fala de Barretos, Jaguariúna e ignora Presidente Prudente, o berço de toda essa onda country que está espalhada por todo o país, uma realidade que não podemos ignorar.
Nossa região não é uma terra de ninguém, como tantos tentam apregoar e a falta de vontade política e de justiça vai acabar por legitimar. Existe toda uma tradição dedicada ao desenvolvimento da região que merece ser respeitada.
Muitos dos hoje chamados grileiros e posseiros são considerados alguns dos melhores criadores de gado do País, com seus animais levantando premiações pelo Brasil afora e até no exterior, atraindo, há décadas, o interesse de empresários dos países do hoje chamado Mercosul, em busca de reprodutores de alta linhagem genética e de sêmen bovino.
Afinal, quais destes pecuaristas, legítimos produtores, se escondem atrás de documentos falsos, ou quais deles ocuparam na marra áreas ilegítimas?
Não conta nada o fato de, ao contrário de outras regiões de conflitos, todos terem escrituras de suas propriedades registradas nos cartórios das comarcas; todos terem seus talões de notas fiscais registrados nos postos fiscais dos municípios, pagando devidamente o ICMS; ou todos terem seus nomes cadastrados no Incra, ao qual pagam o ITR anualmente?
Agora, por que de repente o MST escolheu o Pontal, uma região já formada, desbravada e não o famoso bico do papagaio no Pará e Maranhão, ou outras regiões do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, de maiores conflitos? Será que é porque lá os sem-terra não tem o conforto e comodidade, e aqui o governador é mais complacente?
Afinal, até quando os integrantes do MST vão ser os donos da verdade, posando de eternas vítimas, para os quais qualquer tentativa de manutenção do Estado de Direito é considerada perseguição, com o total beneplácito da mídia e dos pseudo-esquerdistas de plantão, que agem como se os sem terra, a exemplo dos índios, fossem inimputáveis e intocáveis?
O país não percebe que, enquanto o governo dá tratores, crédito a fundo perdido e cestas básicas para os sem terra, a grande maioria dos pequenos produtores brasileiros está endividada, perdendo suas propriedades porque não pode quitar seus compromissos com os bancos?
O país não sabe que existe um grande número de agricultores falidos que simplesmente abandonaram, literalmente, suas propriedades e foram para a cidade em busca de sobrevivência?
Será que esses ditos arautos do campo não percebem que o mais importante é uma Reforma Agrícola e não uma Reforma Agrária?
Ou dá para acreditar na agricultura de um país onde um trator é mais caro que um carro de luxo?
Ora, se realmente querem uma reforma agrária séria, é só assumirem a municipalização da questão, com o governo federal definindo os critérios e o município, com apoio do seu Sindicato de Trabalhadores Rurais e com o acompanhamento da Sociedade Civil, determinando quais verdadeiros sem terras ocupariam o espaço, dando preferência àqueles que provarem que já foram arrendatários, parceiros, meeiros, bóias frias ou trabalhadores rurais, deixando de lado os aventureiros, oportunistas e neo-ativistas que engrossam as fileiras do MST.
O ideal até seria que os primeiros a serem beneficiados pudessem ser aqueles agricultores que perderam suas propriedades para algum banco, por causa do financiamento de um tão sonhado trator ou de uma colheita malsucedida, resultado, mais uma vez, da confiança no plante, que o governo garante.
Aí sim, estaremos definitivamente começando a fazer algo de sério e responsável.


