MST, o inimigo nº 1 da democracia
Escrever sobre o MST é reescrever sobre o que há muito tempo venho alertando: esse movimento não visa a reforma agrária mas a tomada do poder através da via revolucionária. Se a princípio alguns criticaram esta minha afirmação, hoje muitos concordam com ela. E apesar de preferir diversificar os assuntos sobre os quais comento, retomo novamente o tema pois ele tem avassalado a imprensa e, por isso mesmo, impregnado mentes e corações diante do espanto provocado pelas últimas ocorrências levadas a termo pelos chamados sem-terra.
Muito à vontade, eles têm, além de terras produtivas, invadido e depredado prédios públicos, danificado carros, mantido funcionários reféns, ordenado ao presidente da República e ao ministro da Fazenda que venham até eles para lhes dar mais e mais dinheiro. Isso quer dizer, que tendo principiado pela guerrilha no campo, o MST chegou a guerrilha urbana usando seus inconfundíveis métodos intimidatórios e violentos e, por que não usar a palavra apropriada, terroristas. Portanto, o MST se tornou o inimigo nº 1 da democracia.
Bem treinado também em técnicas psicológicas, esse grupo paramilitar têm violado a lei, a propriedade e o estado democrático de direito sob os olhares complacentes das autoridades. E quando essas resolvem, ainda que tardiamente, impedir a desordem e a baderna através dos instrumentos da força legítima, são imediatamente bombardeadas com severas críticas. De forma exagerada surgem as alcunhas de ditador, repressor etc., com o objetivo claro de intimidar o governo e criar na população um clima de insatisfação solidária.
Isso está acontecendo no Paraná na medida em que o secretário de Segurança, José Tavares, está conseguindo impedir que o MST invada prédios públicos ou encene sua habitual violência no meio urbano.
O episódio ocorrido durante esta semana na BR-277, quando a Polícia Militar montou barreira no município de Campo Largo (Região Metropolitana de Curitiba) para impedir que um grande grupo de assentados e sem-terra entrassem na capital para prodigalizar os costumeiros distúrbios, é exemplo marcante do que estou expondo. No confronto houve feridos tanto do lado dos policiais quanto dos assentados, sem-terra e de quantos se encontravam naquele grupo paramilitar, mas a intenção do MST foi frustrada, o que não ocorreu em outros Estados onde falhou a ação preventiva da polícia.
Infelizmente ocorreu neste episódio a morte do assentado Antonio Pereira. Em torno disto está ocorrendo, como era de se esperar, uma grande celeuma e uma série de informações desencontradas. Evidentemente, essa morte tem de ser esclarecida. Entretanto, na medida em que o MST se transformou numa organização militarizada, que age pela força e fere a ordem constitucional, deve estar consciente de que em algum momento de sua ação até agora tolerada beatificamente quando só era desenvolvida no campo, depararia com a força legal que não se comporta nem poderia se comportar diante de confrontos violentos nos quais policiais são agredidos com paus, pedras e armas de fogo atirando lencinhos de renda sobre a cabeça de baderneiros violentos.
Diante do cadáver formou-se o clima de vitimização tão cultuado pelo MST. De todos os lados clamores se elevam, ao contrário do que ocorre quando mortes acontecem entre bandos dissidentes do movimento, pois nesta situação é válido, inclusive, degolar crianças, como ocorreu recentemente.
Organizações internacionais são chamadas para reforçar as acusações contra o governo brasileiro, gesto paradoxal na medida em que o MST e outras entidades ditas de esquerda vivem se utilizando da velha tática nacionalisteira que acusa o governo de entregar nossa soberania aos estrangeiros. Ao mesmo tempo, diante do corpo inerte se materializaram chefes do MST, como João Pedro Stédile, o grande mentor; Roberto Baggio e outras figuras da esquerda nacional que como estes se hospedam em hotéis 5 estrelas e não em barracas de lona preta, e que só aparecem quando suas tropas sofrem alguma baixa ou quando algum fato novo possa lhes conferir a notoriedade que a política requer.
José Rainha, livre e leve depois de ter sido julgado inocente de dois assassinatos, deve também se pronunciar diante do morto. Mas por que Rainha se espantaria ou se emocionaria diante do ocorrido? Afinal, ele já lançou sua advertência revolucionária: O conflito é inevitável. Só falta marcar a data. Só não vê quem não quer.
Ressalve-se, porém, que a ofensiva efetuada pelo MST nesta semana, com a clara intenção de acabar de desmoralizar o governo, obteve deste (talvez já cansado de buscar o inútil diálogo construtivo) uma reação mais veemente. Isso quer dizer, que a data anunciada por Rainha pode ter de fato chegado. Neste momento, não se iluda o MST, cria do PT, da CNBB e de outras organizações de esquerda, pois como criatura poderá se ver sem o amparo dos seus criadores.
O PT já deu a entender que é contra a invasão e a depredação de prédios públicos. A CNBB declarou, através do bispo D. Jacy Braido, da Pastoral Social, que o MST é um movimento autônomo e as ações que praticar são de responsabilidade exclusiva dele (O Estado de S. Paulo do dia 4).
Quanto à população, apesar de se inclinar num primeiro momento para uma fantasia do sofrimento, que costuma transformar o mau ladrão no bom ladrão, e de se identificar com o lado aparentemente vitimado através daquela espécie de prazer mórbido, daquele masoquismo imaginário, que como explicou Carlos Alberto Montaner nos faz também crer que somos vítimas de algum despojo, pode se cansar quando seus interesses mais imediatos forem atingidos.
Nesse momento, nem os mais piegas terão a solidariedade que funcionava enquanto as hordas do MST destruíam o longínquo campo. Nas cidades, a solidariedade é outra, e até o governo começa a reagir depois de longa complacência e de ternos afagos ao MST. Acautele-se, pois, este movimento.
Quanto aos caminhoneiros, vale a advertência: saibam medir seus justos limites. O apoio do povo acaba junto com o combustível.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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