Conversando com um amigo outro dia, ele me disse: ‘‘Imagine a falta de critério que houve nas privatizações no setor elétrico. O governo nem sequer sabia das condições de nossos reservatórios!’’
Na hora não dei atenção para a complexidade da afirmação, mas passei a pensar no assunto. Levando em conta que as privatizações já ocorridas foram num momento em que o problema da falta de água não era tão crítico, mas que já existia, e que Furnas é uma pauta muito presente, vieram-me algumas indagações.
Quando pretendemos adquirir alguma empresa, montamos um grupo de trabalho para avaliar os diversos aspectos do novo negócio, verificando ativos e passivos, resultados, ponto de equilíbrio, retorno do investimento, mercado consumidor, concorrentes etc. Necessariamente alguém tem que avaliar o canal de suprimentos e a perspectiva futura de obtenção das matérias-primas ou dos produtos que se pretende vender. Isso é básico.
Fiquei então imaginando que no caso das privatizações do setor elétrico não deveria ser muito diferente. Portanto, empresas e consórcios do porte dos que participaram dos leilões, e que investiram centenas de milhões de dólares, deveriam, com certeza, levantar o fato de que faltaria matéria-prima para o bom funcionamento do negócio em questão. Quem estivesse engajado nesse processo não deveria ter tido conhecimento das variáveis envolvidas? Será que o negócio é tão bom, que mesmo não tendo o produto para vender, vale o investimento?
Se alguém me dissesse que tem uma fábrica de pão para vender, ‘‘bem baratinha’’, e que o único inconveniente é que não haveria a possibilidade de ser suprida de farinha de trigo, eu juro que pensaria duas vezes.
Já que ninguém sabia que os reservatórios estavam baixos (aliás, muito baixos!), os investidores não puderam ser alertados e portanto nem desconfiavam de que o País já tinha um problema energético há muito tempo!
Tivemos problemas de abastecimento em praticamente todas as décadas desde a de 40! Temos uma sobretaxa no horário de ponta há anos. Temos estiagens consecutivas. Será que nenhum especialista por parte dos compradores ou dos vendedores pôde vislumbrar que o cenário seria realmente ‘‘escuro’’?
Como uma estrutura tão complexa como é o governo federal, que tem um Ministério de Minas e Energia, que por sua vez tem o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) específico para cuidar do suprimento de eletricidade das nossas fábricas, hospitais, escolas, ruas e tudo mais, e que sabe que nossa economia é movida a luz elétrica, não observou a situação crítica do nível de água a tempo para que se tomassem medidas preventivas?
Talvez sejam questionamentos tolos de um cidadão que não entende nada do setor energético (quem tem obrigação de entender são os especialistas), mas que reflete no mínimo a indignação pela qual todos estamos passando.
Hoje fazemos parte da fila dos sem-gerador que aumenta a cada instante. Para se ter uma idéia, há algum tempo, o prazo de entrega do equipamento era de 20 dias, hoje é de no mínimo 60. Poderíamos estar em uma situação diferente se soubéssemos com alguma antecedência do colapso em que se encontra o sistema.
É pedir demais? Não me parece, pois se temos órgãos gerenciadores da estrutura energética do País, é de se esperar que problemas dessa monta tivessem um tratamento diferenciado.
É nessa fila para compra que encontramos tantos outros na mesma situação. Os sem-gerador não se conformam de terem seus empreendimentos ameaçados pela incompetência, sendo que são os geradores da riqueza e do emprego no País e sempre cobrados pela própria competência.
Obviamente estamos em um país de prioridades e com certeza todos os setores necessitam de investimentos. Mas o que não se pode imaginar é uma fábrica (emprego), uma escola (educação) ou um hospital (saúde) funcionando sem energia elétrica. Não é preciso ser especialista para definir o mais prioritário.
Não é momento de procurar o óbvio, ou seja, os responsáveis, mas sim de tomar atitudes que minimizem o problema, e uma delas é com certeza tentar ajudar os sem-gerador.
O governo federal deveria isentar de imediato o imposto de importação e o IPI, e o governo estadual o ICMS (claro que por período determinado), para esse tipo de equipamento. Isso ajudaria na oferta e na redução do custo, fazendo com que a fila andasse e mais gente pudesse dela participar.
- EDILBERTO WICKBOLD é empresário em São Paulo

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