Movidos à impunidade
Mais importante do que reprimir efeitos é identificar as causas que antecedem a um episódio. Mais importante do que identificar as causas específicas é contextualizar o episódio do Couto Pereira dentro da ruína moral a que submetem a sociedade brasileira.
Embora o espetáculo dantesco de domingo ocorrera em local determinado, um estádio de futebol, ele não pode ser visto como fato isolado. Não adianta o político crispar os lábios de ira - ao ler esta análise - e comentar: jogaram a culpa nas autoridades. Foi, sim, consequência dos péssimos exemplos de impunidade. Do não cumprimento da lei e do comodismo das autoridades que não se mexem.
A somatória de tudo isso leva o indivíduo ao estádio para se divertir (esquecer) e desabafar (xingar). Porém, quem define se é necessário algo mais serão o calor do ambiente e o estado etílico do momento.
Antigamente falava-se que o futebol era o ópio do povo e os políticos tinham no futebol algo para engambelar todo mundo. As praças de esporte continuam sendo o escape, mas o entorpecimento moral é algo que o torcedor traz da rua ou de casa.
Portanto, é simplista analisar o desatino dos torcedores apenas pelo foco da fobia repentina. A praça de esporte é uma praça de esporte. Mas se presta para outra coisa, tudo é uma questão de circunstância. E, no subconsciente coletivo, era hora de protestar. Então é praça de guerra, dependendo da disposição para a luta. Afinal, linguagem figurada à parte, não foi a mídia que disse que seria uma ''guerra''? A semana toda, não foi a mídia que fez o brado de alerta? Ainda que apenas referindo-se ao futebol e, ainda assim, figurativamente.
O recado da torcida tem sua multiface e o futebol, às vezes, é apenas metafórico. É o pingo que fez transbordar.
Na raíz, o episódio também pode ser visto pela lógica aplicada. Se invadir prédios públicos ou propriedades particulares não dá em nada; invadir campo de futebol - ainda mais movido pela paixão -, também não tem problema algum. É para protestar, enquanto invadem para saquear. A origem de tudo está no fato de sermos o País, sem autoridade, onde tudo pode.





