Motivos para o otimismo - Magno de Aguiar Maranhão
Motivos para o otimismo
Magno de Aguiar Maranhão
Que a educação brasileira deixa muito a desejar é unanimidade nacional, até mesmo entre as autoridades do setor. Não há mais o que discutir a esse respeito. Mas isso não pode ser motivo de pessimismo para administradores, especialistas e sociedade em geral, pois há fortíssimos indícios de solução à vista e - o mais importante - da mobilização popular pró-escola.
Isso pode ser constatado pelo espaço cada vez maior que a mídia vem dedicando ao tema, não só para apontar os problemas por demais conhecidos, mas também para mostrar caminhos e incentivar debates.
Conforme pesquisa da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), o tema educação foi o que mais cresceu nas reportagens divulgadas pelos jornais brasileiros, no segundo semestre do ano passado. No primeiro semestre, ocupou o oitavo lugar na pesquisa, chegando ao terceiro no semestre passado, sem levar em conta o noticiário sobre o 3º grau.
A ótica da investigação das soluções estava presente em 26,6% das publicações, abordando projetos sociais bem-sucedidos e apresentando debates e campanhas, entre outros assuntos.
Na TV, no rádio e na Internet, os assuntos educacionais também conquistam espaço a olhos vistos, traduzindo o interesse altamente salutar da sociedade por uma escola pública de qualidade para todos.
Entre outras iniciativas importantes para essa mobilização está a da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), que dedicou a 35ª Campanha da Fraternidade ao tema Fraternidade e Educação - A serviço da vida e das esperança. Incluindo debates, palestras, círculos de reflexão, passeatas e mutirões para alfabetização, a campanha dos bispos teve como primeiro grande mérito a proposta de formar uma consciência crítica da sociedade, passo essencial para chegar às profundas mudanças sociais de que o País tanto necessita, pela via da educação.
Também deve ser ressaltado que a educação foi o tema da primeira reunião dos presidentes na II Cúpula das Américas, em abril último, em Santiago do Chile: os 34 chefes de Estado se comprometeram com a meta de colocar todas as crianças na escola e garantir pelo que menos 75% dos jovens tenham acesso à educação primária até o ano 2010.
As condições básicas para isso já foram criadas: nos últimos três anos e meio, a economia da região cresceu 15% e a inflação foi a menor em 15 anos. Outro fato destinado a ter grande repercussão no setor educacional é a decisão dos organizadores das festividades pelos 500 anos do descobrimento do Brasil: a educação é o tema central dos eventos.
O acerto dessa decisão já se fez sentir: mais de mil educadores, autoridades e líderes comunitários participaram, durante dois dias, do seminário Brasil 500 - Como se muda um país através da educação. Em pauta, com a participação inclusive de especialistas estrangeiros, assuntos como a ruptura dos modelos tradicionais de educação, o engajamento das empresas na modernização das escolas e as iniciativas governamentais para a melhoria do ensino.
Durante o seminário, o público apresentou mais de 50 mil sugestões, mais uma demonstração da criatividade e da sensibilidade do povo para os problemas sociais. E de que, quando convocado para uma causa nobre, está sempre pronto a dizer presente, solidário e exercendo plenamente a sua cidadania.
É essa característica do povão brasileiro que renova a esperança de dias melhores, através de uma revolução social popular, com muito amor e solidariedade, sem qualquer tipo de violência.
O povo, aliás, já provou em várias ocasiões - cada vez mais frequentes, felizmente, - que o sucesso da escola depende da comunidade. A grave questão educacional, de fato, deve ser enfrentada não só pelos governos, mas por toda a sociedade, pois é tarefa que requer enorme empenho e vultosos investimentos, porém com enorme retorno, garantido para todos os cidadãos-investidores.
A mobilização popular já abriu e recuperou muitas escolas que estavam esquecidas pelo Poder Público, face à escassez ou má distribuição de recursos. O povo está fazendo a sua parte e deve continuar sendo incentivado a prosseguir nessa luta inclusive fiscalizando a qualidade do ensino e o cumprimento das metas curriculares.
Também deve ser incentivado o maior engajamento da empresa privada na educação, ministrando cursos aos funcionários analfabetos e aos de menor escolaridade, proporcionando bolsas de estudo e adotando escolas públicas. Já há belas iniciativas nesse campo, como as Fundações Bradesco e Roberto Marinho e as Tvs Futura e Senac, de São Paulo, para citar algumas das mais bem-sucedidas.
Nas esfera governamental também se notam progressos com o discurso de palanque sendo substituído por ações concretas e de longo alcance.
Sempre haverá quem observe que os professores, de uma maneira geral, continuam ganhando muito mal. E é verdade, mas também nesse campo houve progressos recentemente, como o Plano de Valorização do Magistério e o Programa de Incentivo à Docência, este com recursos disponíveis a partir de junho próximo.
As ações para a recuperação da qualidade de ensino não ocorrem com a velocidade desejável, pois estão sujeitas a recursos limitados. Décadas de descaso não poderão ser recuperadas em um par de anos, mas a fé em que o desafio será vencido é inabalável para quem analisa a questão com independência e crença no povo brasileiro. Um povo que não cansa de provar que o milagre existe e que há de transformar, em breve, a educação na prioridade número um do País.
- MAGNO DE AGUIAR MARANHÃO é reitor do Centro Universitário Augusto Motta e pró-reitor acadêmico da Universidade Veiga de Almeida no Rio de Janeiro.





