Motivam mas não conscientizam
Walmor Macarini
As igrejas, com suas terapias de massa, motivam mas não conscientizam. Passada a fase do embalo, as coisas vão retornando ao que eram. Quem tinha problemas de fé certamente continuou com eles; quem não os tinha, então já estava bem e não necessitava de mais nada.
Domingo, neste jornal, o psicanalista Mauro Neiches colocou o tema sobre o púlpito ao dizer que os pregadores, apontando ‘‘caminhos de salvação’’, agem como psicólogos de almas e transformaram os bancos das igrejas em divãs coletivos. Diz que há, como tal, uma generalização nos conselhos que dão, e que sob os aspectos da análise isto é um absurdo. Sobre os cânticos dentro dos templos, avalia que eles têm efeito tranquilizante mas é porque, ao mergulhar a pessoa no embalo da música, a induzem a interromper um processo mental de dúvidas e incertezas, porém que passado o efeito o problema continua.
Cânticos e orações são coisas maravilhosas, mas se as igrejas, ao longo da história, não alcançaram grandes resultados como conscientizadoras, são um insucesso ainda maior como terapeutas. Falamos das igrejas dominantes, que envolvem seguramente dois terços da humanidade, com o terço restante integrado por doutrinas e filosofias diversas, por ateus ou indiferentes e pela linhagem dos denominados transcendentes, estes que já ‘‘transpuseram os portais’’ e trilham pelos caminhos da plena consciência.
Já não se distingue se as instituições religiosas tradicionais visam disseminar a fé ou apenas fortalecer-se, qual gigantescas corporações. Contraditório é que incitam, sim, os fiéis à fé, mas quando algum deles transcende os limites que lhe foram estabelecidos, alcançando conexões com níveis superiores de consciência, aí o exorcizam como ‘‘possuído pelo demônio’’. (Este, diga-se, um ser muito valorizado dentro dos templos, pois constitui poderosa ferramenta de intimidação, por isso tão ou mais citado que o próprio nome de Deus.)
Paradoxalmente, as igrejas são as responsáveis pelo retardo no avanço espiritual da humanidade, porque estribadas em ensinamentos equivocados acerca da eternidade e da origem divina do homem. Eis que mantêm o discurso de que Deus está lá no alto, portanto à parte, distante do nosso alcance e da nossa compreensão; que Deus é um ser e possui uma forma, retratada como semelhante à nossa; um Deus com sentimentos de amor e de ira, generoso mas capaz de tenebrosas punições; um pai que pode lançar seus filhos no fogo do inferno...
Assim agem para manter atrelados os seus fiéis, inoculados por este estigma de terror.
As igrejas nunca compreenderam a razão da presença do homem na face da Terra, e o impregnaram de idéias de limitação, de insignificância e de pecado, como tal atribuindo um valor extremado à sua condição temporal, ou seja, olhando demais para esse aspecto. Negam a anterioridade de sua essência, e como tal negam a sua origem eterna. Este o ponto fundamental, em verdade um ponto tênue mas que tem separado treva de luz. Como admitir a eternidade negando a anterioridade?
Como admitir vida eterna para o espírito se lhe dão uma data de nascimento, ou seja, a data de nascimento deste corpo carnal que hoje temos? É que, aceitando a anterioridade, as igrejas teriam que admitir que o espírito de cada ser terreno é pré-existente como os tempos eternos, e isto implicaria em aceitar o princípio de que o mesmo espírito vem, através dos milênios, experienciando sucessivas vidas corpóreas, aqui e em outros lugares desta ‘‘casa do Pai de muitas moradas’’. Sem aceitar a anterioridade não há como imaginar a posteridade. Ficaria aí eliminado o princípio da eternidade. Inconcebível que as religiões ainda trilhem por este caminho de obscurantismo.
Cada ser carrega dentro de si todas as respostas, porque sua essência é um santuário. Se o homem ouvir as vozes que lhe chegam de dentro, pela intuição, em contrapartida das vozes da razão, não terá mais necessidade de frequentar templos construídos de argamassa, onde o que mais fazem é afundá-lo em idéias de que é pecador, condenado a sofrimentos e sujeito a arder em chamas eternas.
Pudesse o homem livrar-se dos grilhões dos templos, longe dos ruídos que ecoam pelas abóbodas, e descobriria, em seu silêncio interior, que o Reino está dentro dele.
Sustentado pela fugaz emoção que o motiva mas não o conscientiza, o homem vai vivendo seus dias cheio de temores, de dúvidas sobre o que o aguarda depois desta vida, porque prefere deixar que os outros pensem, digam e decidam por ele, desprezando o sábio conselheiro que existe dentro de seu ser, sempre pronto e desejoso de falar-lhe. Este conselheiro é o Deus que habita não ‘‘lá no céu’’, mas dentro dele.
Os que ensinam o temor a Deus, estribados no que lêem e não compreendem, melhor fariam se ensinassem a amá-lo, porque o amando amamos todas as coisas, nos amamos uns aos outros e amamos a nós próprios, eis que tudo é apenas uma grande unicidade, e como integrantes desse formidável sistema nós compomos Deus, e Deus de tudo isto se compõe. Então, nada há a temer e tudo já está salvo.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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