Mostrar serviço
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de junho de 1997
Antônio Delfim Netto 
Tendo obtido do Congresso aprovação para a tese da reeleição, o governo se prepara para mostrar serviço. Há sinais de queda nos índices de popularidade do presidente e da perda de confiabilidade, em razão de dois fatores: a estagnação econômica, que mantém altos níveis de desemprego e transmite insegurança quanto à manutenção dos atuais empregos; e a ausência de uma explicação cabal sobre o envolvimento da cúpula governamental no episódio da compra dos votos para a reeleição. Como o governo só pensa naquilo, há um sentido de urgência em transformar em ação a idéia de mostrar serviço.
Estão em preparo uma nova campanha publicitária, destinada a explorar os êxitos do governo na esfera política, e uma série de eventos relacionados às 42 metas do programa Brasil em ação. Tem havido um certo descuido na publicidade oficial na hora de compatibilizar as mensagens otimistas com a realidade social e econômica. De tal sorte que não se pode deixar de refletir sobre o comentário de um dos líderes de trabalhadores rurais, segundo o qual o governo está mais para virtual do que para real: quando você desliga a televisão, o governo desaparece...
Talvez porque comecem a desconfiar da eficácia das mensagens, setores governistas pretendem a redução do tempo destinado à propaganda eleitoral de 60 para 30 dias, com vistas já ao pleito de 1998. Trata-se de um casuísmo dos diabos, com uma justificativa ridícula, a de que é preciso evitar o desgaste do presidente. É claro que o que se deseja é reduzir o tempo de exposição dos demais candidatos. Se isso vier a ser aprovado pela gasosa maioria governista, será um golpe baixo. Apesar de toda a sua ansiedade pela reeleição, não acredito que o presidente esteja por trás dessa manobra que, a meu ver, lhe traria maior perda de credibilidade. Afinal, sua candidatura à reeleição está mais do que lançada e é a favorita nas apostas, o que já lhe dá uma dianteira, na propaganda, de quatorze meses sobre os eventuais desafiantes. Já a iniciativa de mostrar o Brasil em ação encontrará a maior dificuldade para explicar a contradição central de sua política econômica. Não há política de crescimento que se concilie com a política de juros, que inviabiliza investimentos na produção e, acessoriamente, com a política de câmbio, que desestimula exportações. Como o que está determinando a taxa de crescimento da economia (e, portanto, os níveis de emprego) é o constrangimento externo ancorado àquelas políticas, a badalação em torno das obras perde o sentido. O simples anúncio de investimentos públicos não produz o desenvolvimento e não cria empregos. É preciso que o investimento se realize no mundo real, e não apenas no mundo da propaganda. O déficit público impõe limites à capacidade de investimento oficial e os investimentos privados são frustrados, na medida em que o serviço da dívida pública induz à transferência de recursos do setor privado para o setor público. Em qual galáxia, então, vão ser gerados novos empregos?
Os publicitários brasileiros são reconhecidos universalmente por sua capacidade de imaginação. Quem sabe, conseguem demonstrar que não existe aquela contradição... Ou que o desemprego não é problema, e que os brasileiros, mesmo desempregados, subempregados ou que estão a perigo em seus empregos nunca se sentiram tão felizes!...
- ANTÔNIO DELFIM NETTO foi ministro da Fazenda e do Planejamento e é deputado federal (PPB-SP)


