'Mortos ao vivo'
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de maio de 2011
Amarildo Pasini <br> 
Se você tivesse o poder de Deus, quem condenaria ao inferno? Um terrorista que autorizou o ataque aéreo às Torres Gêmeas, um presidente que autorizou o assassinato de um terrorista ou um policial que atirou na cabeça de um terrorista desarmado na presença da familia? Decidir sobre estas causas não é fácil, pois deve se avaliar o contexto, o histórico de vida (ou de mortes), o estado de sanidade, cultura, etc. Considerando que não temos este poder de decisão, talvez seja melhor mudar o rumo da prosa, com outra pergunta: como diminuir a violência no mundo?
Certa vez, o jornalista Newton Carlos, transmitindo uma matéria, declarou: ''Em breve teremos mortos ao vivo''. Esta realidade já chegou. Basta ligar a TV ou acessar um site de notícias. Não basta o relato, a população quer ver a foto do terrorista morto. Que comportamento estranho estamos moldando em nossas cabeças? Se fizermos um balanço destas imagens em nosso cotidiano, podemos refletir: essas coisas são essenciais para nós? Ficamos melhores? Creio que não. Então, por que assistimos ou acessamos?
Nesses casos, a primeira palavra mágica é selecionar. Temos que ser rápidos, pois quando as imagens aparecem, já é tarde. Somos fisgados, como peixes que não percebem a isca sedutora.
Como somente selecionar é difícil, pois nos dá uma sensação de perda, a outra palavra mágica é trocar. Hoje vou trocar o jornal da TV ou uma novela pela leitura de um jornal. Muitos pais decoram a escalação completa do seu time, mas não sabem o nome dos amigos dos filhos. Saindo de casa, se tivermos mais sorte, podemos encontrar um sábio como o doutor Léo Pires Ferreira, pesquisador aposentado. Certa vez, num jantar, ele disse: ''Para Monteiro Lobato, a luta entre o bem e o mal é, na realidade, a luta entre o conhecimento e a ignorância. Os programas de TV deturparam esta imagem e até criaram personagens com comportamentos bizarros, que não refletem a obra
original''.
Dessa forma, temos que analisar: quais são as fontes ou imagens que recebemos? Como a violência entra em nossas casas? Pode ser pela mídia, programas TV, desenhos ou sites infantis, etc. Até os humoristas colaboram com frases do tipo ''vou dar porrada''. Muitos pais ainda batem ou xingam os filhos. Estes, por sua vez, seguem o modelo dos pais, dos super-heróis, etc.
Então, a terceira palavra mágica é cuidar. Muitos livros já foram escritos sobre o tema. Cuidar dos filhos, cuidar da terra, etc. Precisamos cuidar melhor do nosso ''jardim''. Com tanta tecnologia, estamos perdendo a sensibilidade e talvez robotizados. Chegamos a dizer: ''Aquele sujeito é muito humano''.
Felizmente, a tecnologia nunca substituirá a sabedoria, alertava Charles Chaplin: ''Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido''.
No entanto, para que o bem vença o mal, ou seja, que o conhecimento vença a ignorância, somente palavras mágicas não bastam. Temos a certeza de que não corrigiremos isto no curto prazo. Não importa. Temos que fazer a nossa parte, desestimulando a violência e irradiando a paz. Para isto, a melhor estratégia é a ação. Não podemos prorrogar mais.
AMARILDO PASINI é engenheiro agrônomo e professor do departamento de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina


