Mortes no escuro - Renan Calheiros
Renan Calheiros
O ato bárbaro e violento protagonizado pelo estudante Mateus Costa Meira, de apenas 24 anos, que entrou no cinema em São Paulo e disparou aleatoriamente, matando três pessoas e ferindo outras cinco, além de estarrecedor, nos impõe a responsabilidade de ousarmos no combate à violência.
Episódios como este são cotidianos nas periferias das grandes cidades. Ocorre um crime por hora nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio. Quando atinge a classe média, ele se sobressai na rotina de violência. Na raiz desta e de milhares de outras tragédias está a vulgarização da droga e a banalização das armas.
No Brasil, 89% dos homicídios são praticados com armas de fogo e, mais de 60% deles, por motivos banais. Uma discussão acalorada em um bar, uma rusga em um estádio, um bate-boca no trânsito, na rua ou na escola, acabam em tragédias que nos conferem estatísticas sinistras de violência, como o campeão de homicídios, segundo a ONU.
Durante minha gestão no Ministério da Justiça, propus a proibição da venda de armas e munição em todo território nacional. Uma lei publicada no Diário Oficial, é claro, não resolve o problema da violência, mas é um passo decisivo e necessário para acabarmos com o crime sem causa, fruto da facilidade de se adquirir armas no País.
Estamos demasiadamente tolerantes, complacentes com a proliferação das armas. Quantas tragédias mais serão necessárias para acabarmos com esta epidemia da violência? Circulam no País, aproximadamente, 20 milhões de armas e só 1,5 milhão legalizadas. A legislação atual está ultrapassada e favorece a clandestinidade. Vamos silenciar estas armas. Este é o momento.
O cidadão de bem se arma na ilusão de que ficará seguro e protegido. Isto não adianta. O bandido está sempre pronto e sabe manusear a arma. Surpreendido é sempre o cidadão honesto. As estatísticas revelam que 96% das vítimas armadas, quando reagem, acabam sendo assassinadas. Então para que armas?
A sociedade já se manifestou de maneira eloquente. Numa pesquisa nacional, 85% da população aprovou a proibição da venda de armas e de munições, mesmo entendendo que uma lei, por si só, não elimina, mas reduz a violência.
O projeto está no Congresso paralisado pelo lobby obsceno dos quatro abricantes nacionais. É preciso sempre ter a consciência de que a cada estampido poucos lucram e muitos perdem familiares e amigos. Vamos estimular a exportação de toda a produção nacional, o que não prejudicará nenhum emprego do setor.
Depois de proibirmos a comercialização, é necessária uma unificação das polícias no combate ao sofisticado contrabando das quadrilhas internacionais. Há estatísticas de que, no Rio, 72% das armas apreendidas, só foram exportadas no papel. Ficaram aqui mesmo alimentando a violência. O Congresso, em nome do País, está obrigado a resistir e enfrentar os mercadores da morte. Chega de armas.





