A morte, em Tel Aviv, da jovem carioca Kelly Fernanda Martins, evidenciou de forma trágica a ação de uma rede transnacional de prostituição dedicada ao aliciamento de mulheres brasileiras, quase sempre jovem de condição humilde, que embarcam para o exterior iludidas com promessas de trabalho digno e bem-remunerado como babás, balconistas ou bailarinas.
Lá chegando, porém, passam a viver um pesadelo de violência e degradação. Os aliciadores lhe tomam os passaportes, submetem-nas a um regime de cárcere privado, obrigando-as a ter relações sexuais com até 15 clientes por dia. Mesmo nas folgas, seus movimentos são vigiados por seguranças armados, e os espancamentos frequentes servem como advertência àquelas que ousam pensar em fugir.
Este é o testemunho de oito colegas de Kelly, salvas graças a uma batida policial nestes prostíbulos e que aguardam ansiosas o retorno ao Brasil, nos próximos dias, para o alívio de seus familiares.
O Ministério da Justiça está empenhado em pôr um ponto final neste drama de aviltamento e exploração de cidadãs brasileiras. Em estreita colaboração com a Interpol, a Polícia Federal instaurou cinco inquéritos e continua investigando as conexões locais desta máfia, cujos principais centros, aparentemente, estão em Israel, Espanha e Portugal. Apenas na Espanha, vinte brasileiras, em média, são expulsas, por mês, acusadas de envolvimento com esses esquemas. O governo também está encaminhando negociações para a celebração de acordos de cooperação internacional, nas áreas jurídica e policial, com países onde se verificam as maiores ocorrências.
Tais acordos serão fechados com base num quadro de denúncias de prostituição em todo o mundo, que está sendo concluído. Por fim, antes do final deste ano viajarei à Espanha e a Israel para avistar-me com autoridades e negociar a inclusão nesses acordos de cláusulas de ajuda mútua para investigação e prisão de aliciadores.
- RENAN CALHEIROS é ministro da Justiça

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