Morte anunciada
O título acima não é nada original. Saiu do título de um livro do escritor colombiano Gabriel Garcia Marques. Mas a falta de originalidade compensa o uso de expressão tão apropriada para definir a morte do sequestrador Fernando Dutra Pinto numa cela em São Paulo. Havia muitos sinais a indicar que o rapaz corria risco de morte. Havia muitas circunstâncias mal-esclarecidas durante o longo e televisivo sequestro de Patrícia Abravanel, uma das filhas do apresentador Sílvio Santos, que poderiam incriminar outras pessoas. A morte de Fernando era uma questão de tempo e oportunidade. O tempo passou e ele morreu.
O Estado, a quem competia garantir-lhe a segurança, falhou. Quem sabe, em certa medida, contribuiu para a sua morte. O próprio governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, havia assumido com ele o compromisso de lhe dar garantias de vida, para convencê-lo a libertar o apresentador, mas não pôde cumprir a promessa. Sabia-se que Fernando poderia morrer na prisão,pelas mãos de outros criminosos ou de policiais, e pouco ou nada foi feito para protegê-lo.
Num país em que a Polícia Federal atribuiu a uma fantasiosa inseminação artificial com caneta Bic a gravidez de uma cantora na prisão, é de se supor que a morte de Fernando nunca seja esclarecida, como não foi esclarecido o episódio em que três policiais tentaram prendê-lo num hotel em São Paulo e dois deles acabaram mortos. Difícil acreditar em incompetência, o que já seria ruim. Parece mesmo falta de vontade de esclarecer episódios nebulosos, uma forma de negligência que pode ter facilitado a morte de Fernando. Havia um anúncio de morte e ele foi cumprido.
O fim de Fernando Dutra Pinto coincide com uma nova onda de sequestros em São Paulo. Longos, caros, profissionais. Em clima de medo, insegurança e ódio, comuns nesses momentos, não faltará quem justifique e comemore a morte de um sequestrador. Menos um, dirá alguém. Também esse sentimento faz parte da espiral que anunciou a morte de Fernando, porque tolera e incentiva a incompetência e a negligência e, com elas, o crime nas ruas. A cada prisioneiro que morre, como morreu Fernando, estamos mais inseguros.
ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília





