Mortalidade Maturidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de abril de 1998
Joel Samways Neto 
O que a semana passada tem a ver com esta semana? Para o cenário político nacional, essas duas semanas demonstrarão à história do Brasil se as instituições democráticas atingiram, ou não, a maturidade. Semana passada, duas mortes retiraram de cena dois dos principais articuladores das reformas propostas pelo governo federal, Sérgio Motta e Luís Eduardo Magalhães. Esta semana, a continuidade do processo de votação dessas reformas.
Pode parecer humano, pode parecer oportunismo, pode parecer, como disse o líder do PT na Câmara dos Deputados, Marcelo Deda, chantagem, a declaração do presidente Fernando Henrique Cardoso, ao embarcar no avião de volta da viagem à Espanha. O presidente pediu que os congressistas aprovassem logo as reformas, como homenagem àqueles dois finados políticos.
Chantagem? Oportunismo? Ora, o que a oposição gostaria que Fernando Henrique fizesse? Obviamente, que decretasse luto oficial até o final do seu mandato, paralisando todos os trabalhos do Poder Executivo e as articulações junto ao Legislativo. É claro que nenhum oposicionista entregaria à imprensa um desejo assim, abrindo a caixa-preta do seu subconsciente. Seria desumano, para dizer o mínimo. (Quantos não gostariam de suspender o jogo político?).
Fernando Henrique agiu como agiria um estadista consciente de suas obrigações perante o País. Aliás, se escorregou, escorregou ao cancelar a visita à Espanha. Era a visita oficial, de Estado a Estado, com rigores de cerimonial diplomático. Foi desconcertante ver, no telejornal internacional, os militares espanhóis, em traje de gala, perfilados, observando o soldado enrolar o tapete vermelho. Nosso presidente foi brasileiro demais, ali. Deixou que seu lado afetivo, seu coração, abatidos pelo desencarne de dois dos seus grandes amigos (seus irmãos, como se referiu o próprio Fernando Henrique), se sobrepusessem ao dever de ofício. Foi mal, nessa ocasião. Todavia, é preferível que o presidente decepcione um pouco a diplomacia estrangeira do que muito a maioria do povo brasileira. A maioria que o elegeu, já no primeiro turno das eleições de outubro de 1994.
Para quem não está seguindo só de orelha a história política brasileira, as reformas chamadas Reformas de Estado (da Administração Pública, da Previdência Social, a reforma fiscal, as privatizações), integram, com destaque merecido, a proposta de governo feita durante a campanha de 94, o Mãos à obra, Brasil. A maioria escolheu as reformas. E a maioria do Congresso Nacional foi eleita nessa mesma esteira. Então, pedir que as reformas sejam votadas de uma vez, antes do recesso decorrente do pleito deste ano, é, antes de tudo, pedir a conclusão de um trabalho querido pela maioria do eleitorado.
Se o presidente agiu, em solo espanhol, como ser humano, falível, sensível, brasileiramente afetivo, em detrimento das obrigações do cargo que ocupa, para dar o último adeus ao seu amigo Luís Eduardo, agora deve agir mais ainda com esse sentimento de companheirismo. E ele o está fazendo à medida que conclama seus ministros, suas bases no Congresso, para o desfecho da luta plas reformas. Afinal, grande parte do estresse que contribuiu, significativamente, para a morte daqueles dois políticos, pode ser debitada na conta das negociações em prol das privatizações e da aprovação das reformas constitucionais.
A saída de cena do Sérgio Motta e de Luís Eduardo Magalhães apenas torna mais cara a vitória da concretização das reformas propostas pelo governo federal. (A esta altura do campeonato, é difícil afirmar que se ambos cuidassem melhor da própria saúde talvez ainda estivessem encarnados; como também é difícil afirmar que se porventura não se tivessem estressado tanto em seu trabalho as conquistas obtidas até aqui não teriam sido alcançadas.)
Prefiro achar que estamos maduros o bastante, pelo menos para entender que o ideal que move os homens públicos deve pairar acima deles, não morrer com eles, porque se trata de um ideal de servir ao interesse público. Prefiro achar que os defensores dos interesses da maioria do eleitorado brasileiro não recuarão por causa das pressões da oposição - esta, sim, oportunista quando aposta, através da mídia, na fragilização de Fernando Henrique, qualificando o ocorrido como golpe fatal e perda de insubstituíveis.
A oposição exercita seu direito e desempenha seu papel como pode. Porém, não há retórica ou artifício que consiga nublar da consciência coletiva a verdade de que a vida continua. Para quem parte e para quem fica.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná


