O mundo inteiro ficou horrorizado com as mordidas de orelha desferidas por Mike Tyson, mas não se horroriza com algo muito mais violento: o próprio boxe. Porradas na cabeça, no nariz, no fígado, no baço - ‘‘esporte’’ que até já levou pugilistas à morte - isto pode, é natural, provoca delírios, mas de repente uma dentada na orelha escandaliza a humanidade. A quebra da ética (dita) esportiva causa mais perplexidade que a quebra do maxilar por um soco.
Os norte-americanos estão envergonhados, porque todo mundo viu. Até o presidente Clinton se pronunciou.
A gente sabia que os americanos eram bons em promover guerras, em soltar bombas atômicas sobre cidades - essas coisas triviais previstas em lei - mas agora, com esta de morder orelha, eles foram longe demais! Porque isto não está em nenhum regulamento. Nem o Edmundo seria capaz!
Comer uma orelha de porco aos sábados, regada a feijão preto e farinha de mandioca catarinense, e ademais precedida de uma caipirinha sabor Brasil, aí tudo bem, mas comer a orelha de um semelhante - e, tanto pior, comer e cuspir fora - aí extrapolou. Com esta o Mike Tyson desmoralizou o chupa-cabra.
Fernando Veríssimo escreveu que Evander Hollyfield ficou mordido não pela mordida, mas pelo desprezo de Tyson ao rejeitar com um cuspe seu pedaço de orelha. Aí ofendeu.
Não se cospe fora uma orelha de 15 milhões de dólares! Mordeu, tem que engolir!
As seguradoras americanas, que extraem de tudo a oportunidade do negócio, já devem estar se atiçando: daqui pra diante, luta de boxe só com seguro de orelha. Porque com o Mike, se descuidar da orelha ele morde; se ficar de orelha em pé, mais fácil ainda pra ele. De qualquer jeito ele pega. É um guerreiro esse comedor de orelha! Ele luta com punhos e dentes!
E se convier a esse negócio rendoso que é o boxe, não tenhamos dúvida: eles põem a mordida de orelha no regulamento. Tyson não quererá perder mordidas e os americanos não quererão perder Tyson. E se for norma, a humanidade não mais ficará perplexa. Hollyfield deu aquelas voltas estonteantes, ao perder a orelha, não pela própria, não pela dor e pelo sangue derramado, mas porque não estava no regulamento.
O americano primeiro comeu o cachorro quente, depois comeu o McDonald, agora está comendo o Hollyfield. Quem provar e não gostar, pode cuspir, mas tem que pagar pra ver.
Este fast food de orelha sem tempero foi um destempero de Mr.Tyson.
Como destemperado foi o nosso Zagalo ao querer que a gente engula ele. Foi o que ele impôs, depois da vitória de seus jogadores na Bolívia. ‘‘Vocês vão ter que me engolir’’ - foi sua sentença patética. Agora vamos ter que enfiá-lo goela abaixo.
Zagalo não quer críticas, nem a ele e nem à seleção. Diz que isto é falta de patriotismo. Houve época em que uma crítica, amena que fosse, era qualificada de inconformismo ideológico. Dava cadeia, com direito a tortura e sumiço.
Enquanto Dunga capitaneava, com os jogadores unidos, uma oração de agradecimento, Zagalo oferecia-se em holocausto, para o engolirmos.
Comer orelha é fácil, difícil é engolir o Zagalo! Haja sonrisal!
Por que será que falam tanto do Zagalo? Deve ser porque é técnico da Seleção Brasileira de Futebol! Já do técnico do Estrela do Sul - o time do meu pequeno Meleiro - ninguém se ocupa.
O Romário simula um estiramento e sai de campo, depois se descobriu que era para que lhe sobrasse energia para dançar à noite, na boate. Ganhamos sem ele. E Edmundo não saiu sem dar um sopapo em alguém, senão ele não é o Edmundo. Pouco patriotas, os dois.
Edmundo nunca ri, Zagalo também não. Deve ser problema facial.
Bad boys. Criança não deveria ver essas coisas!
Vai pra casa, Padilha!
Agora falamos de outro. O Eliseu Padilha, ministro dos Transportes. Aquele que disse que ‘‘o brasileiro gosta de dois pretos: do Pelé e de asfalto’’.
Quanta inteligência! Quanta imaginação criadora! Quem profere uma frase tão iluminada merece perpetuar-se no poder!
Criança não deveria ouvir essas coisas!
Mas, apesar dos pesares, vivemos uma democracia. Até um ministro pode falar o que quer. Houve tempos em que a gente ouvia coisas assim e ainda tinha que aplaudir.
Terça-feira o ministro chamou a Brasília os líderes dos movimentos negros, para pedir desculpas.
Não precisava, porque ele não cometeu nenhum ato racista, foi apenas um procedimento tão comum tratando-se (de boa parte) de nossos políticos; apenas um delito de mau gosto. Punível com gargalhadas de profunda tristeza.
Quanto gasto de tempo e de energia! Ao invés de ficar explicando o inexplicável, melhor faria o ministro se lançasse mão de um dos pretos de que tanto gostamos, o asfalto, e fosse tapar os buracos das estradas brasileiras, enquanto a nação se recupera da congestão e desse arroto com hálito de Zagalo engolido cru e inteiro, aí incluídas as orelhas.

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