Mordaça e trapaça
TT CatalãoBrasília tem a marca da dificuldade. JK que o diga. Os candangos, primeiros, que confirmem. Uma cidade sob tardia libertação civil. Foram longos os vinte anos de censura sobre a mobilidade social, fora das garras do Estado. O que surgiu nasceu nas frestas, como ‘‘a graminha acha o sol pelas brechas do asfalto’’, para citar dom Helder ou o ‘‘rock racha concreto’’ dos ótimos Plebe Rude. O que surgiu nasceu da atitude voluntária: decidir primeiro e contagiar o coletivo depois. A maioria vinda na cultura e na imprensa.
A cidade ainda está sujeita a recaídas que parecem distantes do quadro nacional. Exemplo, como um governo financiado pelo imposto público tem o acinte de sonegar informações à população que o sustenta (em dinheiro, é claro)? Como conviver, em silêncio, com distorções de Estado tão lesivas ao mínimo de inteligência e sob tão baixo instinto rancoroso ante críticas naturais em qualquer processo democrático? A Brasília tardia ainda está nas sombras da ditadura. Tempos em que o brio anulava o breu.
O Brasil já respirando alguma liberdade e o brasiliense na cidade abortada em seu projeto utópico: fraca em sua indignação. Frágil em mobilidade por medo ao partidarismo. Perdemos a ingenuidade de lutar por bandeiras sem dogmas.
Brasília está sob pressão à liberdade. Parece algo fora de moda no País. Amargamos os anos de controle férreo sobre qualquer opinião diferente. Mas sabíamos resistir. Não havia um atentado à liberdade civil que ficasse sem resposta. A cidade era quase tribo, em solidariedade. Não tínhamos Câmara e, talvez assim, todos sentiam-se cidadãos com ampla autonomia para se expressar e se fazer representar.
Acreditava-se, mesmo, que um sonho começa com um, brota, cresce, até virar comum. Não delegávamos papel quando a nossa consciência determinasse ação. Íamos à luta. Com a cara, a coragem e sofrendo pesadas consequências em perdas de emprego, isolamento, escárnio, gelos institucionais dos mais graduados e infames possíveis. As querelas de Brasília. Em descompasso com o País.
Mas esse exercício propiciou o plano de liberdade que temos hoje. Trocar dobradiças serviçais por vértebras cervicais. Íntegras. A cidade aprendeu a distinguir a submissão dos que confundem proximidade com o poder com promiscuidade governamental. O jornalista e compositor Antonio Maria, ao ser ameaçado de ter as mãos quebradas por um gângster político, incomodado por suas matérias, simplesmente respondeu: ‘‘Estúpido, ele acha que penso com as mãos’’. Um outro detalhe está nas cenas finais do filme Todos os Homens do Presidente, de Alan Pakula (que mostra a redação do Post e o processo Watergate): o som dos canhões que mostram a partida de Nixon da Casa Branca vai, aos poucos, sendo abafado pelo som das teclas da máquina de escrever dos jornalistas. Um claro elogio da inteligência contra a força. Começou com um. Até virar comum!
TT CATALÃO é jornalista em Brasília

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