A Campanha da Fraternidade de 2026 é um convite para que todos nós, independentemente da religião, possamos refletir sobre um dos aspectos mais fundamentais da vida humana: o direito à habitação digna. O tema “Fraternidade e Moradia” – extraído do Evangelho segundo João (1,14): “Ele veio morar entre nós” – nos recorda da necessidade de colocar a habitação no centro do debate, em especial em um país ainda marcado por profundas desigualdades sociais.

Como cristão, sei que a encarnação é o gesto do Deus que escolhe viver a nossa realidade. Como gestor público e ex-prefeito, aprendi que morar vai muito além do que ocupar um espaço. A casa é o local da proteção, da dignidade que um endereço representa e do desenvolvimento de vínculos. Mas também é o local onde a saúde é preservada ou, quando essa habitação não é adequada, onde a saúde é colocada em risco.

Antes mesmo de qualquer atendimento, diagnóstico ou tratamento, é nas condições em que as pessoas vivem que se encontram muitos dos fatores que influenciam seu bem-estar – e sei disso na prática, a partir da minha experiência na área da saúde. Ambientes com ventilação inadequada, excesso de umidade, ausência de saneamento básico ou superlotação favorecem a disseminação de doenças respiratórias, infecciosas e parasitárias, além de agravarem condições crônicas e afetarem a saúde mental.

Por outro lado, um ambiente seguro e estável contribui para a recuperação de pacientes, a adesão a tratamentos e o desenvolvimento saudável de crianças e idosos. Em outras palavras, a casa é o primeiro espaço onde a saúde é construída. Por isso, quando a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil fala sobre o direito à moradia, ela também fala sobre saúde física e bem-estar psíquico.

No caso brasileiro, ainda que tenhamos um longo caminho pela frente, a Constituição de 1988 trouxe avanços importantes – e um grande exemplo é o Sistema Único de Saúde (SUS), estruturado para garantir acesso universal e estar próximo da vida cotidiana das pessoas. Diferentemente de um modelo centrado em hospitais, o SUS se organiza de forma territorial, com unidades distribuídas nos bairros e equipes que acompanham as comunidades de forma contínua, inclusive dentro de casa. Essa proximidade permite orientar, prevenir e identificar riscos antes que se transformem em situações mais graves.

No Paraná, o Governo do Estado, por meio da Secretaria da Saúde, trabalha em muitas frentes para estar cada vez mais próxima às pessoas, com foco na regionalização e na construção de unidades de atendimento, hospitais e maternidades para atendimento local. As Unidades Básicas de Saúde (UBS), por exemplo, representam a principal porta de entrada do cidadão no sistema público. Hoje são 2.156 Unidades Básicas de Saúde e 554 Postos de Saúde na rede, assim como 52 unidades previstas do Pronto Atendimento Municipal (PAM), que incluem todas as modalidades de Atenção Primária à Saúde.

Essas unidades acompanham famílias ao longo do tempo, promovem ações de prevenção, monitoram condições crônicas e contribuem para a construção de uma relação contínua entre o cidadão e o sistema de saúde. Ao todo, o Paraná possui mais de 2,8 mil equipes de Estratégia Saúde da Família (ESF) e 491 equipes de Atenção Primária à Saúde. Com isso, a cobertura populacional estimada da APS é de 94,33%, ou seja, praticamente toda a população paranaense tem uma unidade de referência.

Por meio desses profissionais, o sistema público alcança diretamente os domicílios, fortalecendo o vínculo com as famílias e permitindo uma compreensão mais ampla das realidades locais. Na gestão do governador Ratinho Junior há todo um entendimento de que o cuidado com a saúde não deve se limitar aos espaços formais – como hospitais e postos –, mas acontece no cotidiano desse lugar de proteção que é o lar.

Urbanizar, regularizar, levar saneamento, iluminação e equipamentos públicos aos locais mais vulneráveis, portanto, não é uma tarefa que se enquadra na “caixinha” de uma secretaria ou outra, mas algo que perpassa toda estratégia de governo – do saneamento à habitação, passando pela educação e pela saúde. Desse modo, a Campanha da Fraternidade de 2026 é muito certeira ao provocar essa reflexão sobre como garantir uma habitação digna é um compromisso muito mais amplo e contínuo do que costumamos imaginar.

Beto Preto, secretário de Estado da Saúde do Paraná

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