O sonho da casa própria mais parece um pesadelo. Barracos tortos, feitos de tábuas desiguais com frestas por onde passa o frio e a chuva. O chão é de terra batida. Quase todos têm, no máximo, dois cômodos onde as famílias se apertam. Muita sujeira em volta, muita poeira. Em vez de quintal, mato. Esse é o cenário das ocupações irregulares em Londrina, pequenos e grandes bolsões de miséria que se espalham pela cidade são 36 invasões, quase cinco mil pessoas sobrevivendo nessa realidade. Além da miséria e da violência, a ilegalidade: as ocupações são em fundos de vale, áreas públicas ou particulares. Os barracos aparecem da noite para o dia e cada nova invasão é mais uma ''briga'' dos moradores com a prefeitura.
''Estamos dispostos a brigar. Daqui a gente não sai de jeito nenhum'', diz Elaine Gonçalves Pereira. Ela mora com o marido e os filhos no Vale Santa Inês (Zona Leste). São 36 famílias que estão há 10 anos vivendo nas margens do córrego Água das Pedras fundo de vale, área de preservação ambiental. Nos fundos dos barracos o lixo quase entope o córrego, que cheira mal. O mato alto é esconderijo de insetos e ladrões, segundo os moradores. Na frente da invasão uma pedreira enche o ar de poeira. Definitivamente, nada que se possa chamar de ''lar doce lar''.
Em setembro do ano passado os moradores foram informados que terão que desocupar a área. Quatro famílias foram cadastradas no Programa Subsídio Habitação (PSH), do governo federal. Assinaram os contratos e concordaram em mudar para um loteamento regular com casa de alvenaria. No entanto, quando foram conhecer a casa nova, no Conjunto Jamile Dequech (Zona Sul) mudaram de idéia: ''Lá não tem posto de saúde nem escola e fica longe do centro. A Cohab pode dar baixa naqueles papéis que a gente assinou. Vamos ficar aqui mesmo e, se quiserem tirar a gente daqui, que venham com a polícia'', afirma Cleide Ribeiro.

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