Moradas do sol
Agora dei em vê-las, as árvores. Elas me surgem sem cerimônia das esquinas em florações de fantástica beleza. Fui eu que mudei, captando sob uma nova ótica da sensibilidade essa vibração das cores, ou foi a natureza que se tornou mais exuberante nesse início de verão?
Há questão de dois meses notei os flamboyants que me apareceram quase que de chofre, pois os vi de repente como fogueiras floridas se elevando ao céu. Eles povoaram outubro e novembro, marcando meu estado de espírito, confundindo-se com os pores-do-sol onde o dia se dilui nessa época do ano entre matizes rubros do entardecer.
Foram-se os flamboyants, como tudo na vida se vai. Mas eis que para o consolo de minhas retinas eclodem as acácias de cachos amarelos, desfolhando dourado e esperança nas calçadas por onde passam indiferentes à beleza os atribulados, os cansados, os exauridos, os ocupados, os insensíveis, os amargos, os tristes, os culpados, os solitários. Que triste é não ver os ipês a espargir perfume como incandescentes moradas do sol.
Talvez essas árvores estejam mesmo é prestando um culto secreto à estrela que nos ilumina e sem a qual a vida se extinguiria no Planeta. Ou quem sabe, sejam um alerta para que deixemos as sombras em busca da Luz. Ah, é preciso decifrar floradas e cores, tarefa que não é só para iniciados e poetas mas para os que vivem em busca das moradas do sol.
Em tempos imemoriais, nas religiões antigas, cultuava-se o sol como símbolo da vida. Entre aquelas civilizações remotas, que viviam sob o sagrado domínio solar, erguia-se a mais portentosa de todas, a egípcia, pátria sagrada de deuses, esfera de poder dos faraós. O Egito, cuja glória está retida em construções que desafiam a interpretação humana, tem mistérios que até hoje permanecem ocultos nos vértices das pirâmides, na arte da mumificação, no culto dos mortos, na crença da eternidade.
Na quinta dinastia, das 32 que existiram, começaram a surgir os templos solares, e o mais famoso, o de Heliópolis, foi certamente o protótipo a partir do qual os filhos de Rá, os faraós, construíram outras moradas dos deuses. Naqueles primeiros edifícios não havia estátuas e apenas um imenso obelisco sobre a mastaba era o símbolo de Rá, como um raio petrificado de sol. Todas as manhãs o deus viajava através do céu, triunfando sobre o caos e a maldade, e mesmo durante a noite ele mantinha o mal encurralado até renascer pela manhã.
Na 18ª dinastia, o Egito assume dimensões épicas e seu mais alto grau de evolução. Nesse tempo perdido entre as areias do deserto e as águas do Nilo, reinaram Tuthmosis I (o faraó que substituiu as pirâmides pelas tumbas encravadas no Vale do Reis), Hatshepsut (a única farani que governou o Egito) e Hamsés II, o maior de todos os faraós.
Diante desse poder mágico e sagrado como são pífios nossos governantes atuais, mesquinhas suas maquinações políticas, vulgar e empobrecido o agir dos representantes por nós eleitos. No poder fugaz de agora, o imediatismo é a característica de uma época de produtos descartáveis. Vivemos a era do tempo fragmentado, do saber decomposto em especializações e nos encerramos em partículas de existência onde os relacionamentos superficiais deixam às vezes à deriva as emoções mais importantes.
Mas aportemos no tempo de Amenófis IV. Pela primeira vez surge a idéia do monoteísmo, pois o faraó irá declarar que existe um único deus cujo símbolo é o Sol, Aton, que abre os braços para dar vida ao mundo. O nome do rei então é mudado para Akhenaton (aquele que rende serviço a Aton). Enquanto viveu, ele defendeu sua doutrina, ferozmente combatida pelos sacerdotes de Amon. Akhenaton se tornou aquele que vive da Verdade e em louvor ao único deus cantava: Tu és o eterno, o céu é teu templo no qual apareces cada dia para dar a vida aos filhos saídos do teu corpo.
Isso aconteceu há muito tempo, perdendo-se em mistérios cada vez mais cerrados ao homem moderno, que se continua mantendo dentro de si a busca do Sagrado, recebe apenas pálidos reflexos de conhecimento das religiões de massa cada vez mais politizadas, sincretizadas, exotéricas e distantes do esoterismo professado pelas crenças dos antigos povos.
Estas acácias assim refletindo o sol me levaram muito longe. Naveguei pelo passado através do Rio Nilo. Busquei em templos imemoriais o Deus Único, o mesmo que hoje é cultuado nas religiões monoteístas. Na procura da Luz, tentativa de dissipar minhas trevas interiores, tornei-me uma humilde sacerdotisa de Aton diante das árvores de ouro que notei neste final do século XX da Era Cristã.
Talvez só os iniciados e os poetas poderão me compreender. Ou quem sabe, muitos mais estarão comigo nesta viagem da imaginação, onde se pode ir mais longe do que quando o guia é a razão. Afinal, criar é legado divino recebido pelo homem, e criar através das palavras é tentativa de se aproximar dos universos particulares em que cada pessoa se encerra com seus mistérios e aparências. A isso se chama comunicação.
Um amigo me transmitiu uma mensagem de final de ano, que repasso a todos que porventura tenham viajado comigo pelo Egito Antigo à sombra das acácias: É preciso a visão de um novo horizonte feliz, de uma fresta de luz no paiol da vida. Precisamos, nem que isso faça sangrar as mãos, chegar até a parede e rasgar uma fresta para que entre a Luz que vem do Leste.
Quando vejo o sol lançando uma luz especial sobre os prédios que se tornam resplandecentes no final da tarde como se emergissem de uma cidade encantada, meus olhos perscrutam os horizontes em busca de outras moradas, onde a Luz, a Vida e o Amor universal são os apanágios da eternidade.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora em Londrina
[email protected]





