Monumentos à impunidade
Outro dia acompanhava o noticiário, quando vi que o tal do Fernandinho Beira- Mar, renomado bandido internacional e conhecido traficante, havia chegado no avião de nossa FAB ao Rio e encaminhado imediatamente a um hospital militar para uma cirurgia no braço baleado. Prestei muita atenção ao fato, pois recentemente, igualzinho a quase todo brasileiro esperei seis longas horas para poder estar internado no Hospital Universitário e submeter-me uma operação no pé quebrado em acidente. O bandido, além de viajar gratuitamente de avião, não esperou nada para dar entrada ao hospital e ver seu problema sanado graças às contribuições dos honestos brasileiros.
Também não faz muito tempo, o ladrão internacional Ronald Biggs foi sequestrado pelos britânicos e levado para Barbados com a finalidade de ser posteriormente extraditado para seu país e cumprir a pena da qual conseguiu escapar fugindo para o Brasil, onde passou metade de seus dias vivendo, e muito bem, do dinheiro ganho com entrevistas e até mesmo tradicionais feijoadas em sua cobertura na praia do Flamengo onde cobrava caros ingressos dos que se dispunham a conhecê-lo e tirar, quem sabe, uma foto ao seu lado. Tudo isso livre dos impostos que todos estamos acostumados a, tão sofridamente, pagar sem reclamar. Frente à comoção nacional, o Itamaraty apressou-se a reivindicar o bandido de volta numa campanha que bem poderia chamar-se O Ladrão é nosso! Tomara que agora os ingleses fiquem definitivamente com ele, pois será um favor que nos farão.
Aqui em Londrina, o prefeito cassado foi finalmente preso para surpresa dos que esperavam que tudo acabasse em pizza, como de hábito nos trópicos. O homem foi para o novo endereço sem algemas e recolhido ao 2º DP em cela anteriormente habitada por um louco do qual ninguém mais soube o paradeiro. Deve ter sido encaminhado provavelmente a um hotel para ceder lugar ao tão nobre novo hóspede. Li nos jornais que o prefeito tem vários cobertores, chuveiro quente, TV e ainda recebe visitas a qualquer hora do dia ou da noite, direito que não é estendido, mas deveria ser, a todos os demais presos.
Nossa Câmara de Vereadores, em sua legislatura passada, além de doar praças e ruas que pertenciam ao povo, homenageou a esposa de um rico empresário condenado por descaminho com o título de cidadã honorária, enquanto outros tantos homens e mulheres de bem que construíram nossa cidade jamais foram lembrados, ainda que depois do falecimento.
E o crime de Guaratuba? Alguém, além de meus familiares, lembra-se de que o assassino, mesmo condenado a treze anos cumpriu pena de somente seis meses em regime domiciliar e acabou libertado por indulto presidencial? Vou ficar de olho para que nunca rendam homenagens ou construam monumentos a esse também.
Os sem-terra, que em sua maioria posam de santinhos mas que na verdade não passam de criminosos e quem teve sua propriedade invadida conhece o grau de destruição provocado por esse movimento guerrilheiro ganharam também um monumento para que sejam lembrados pelos infelizes pagadores de impostos do Brasil. Aliás, falando em sem-terra, preparem-se, pois a febre aftosa está rondando nosso País e ainda não ouvi nada sobre a vacinação na Fazenda Sete Mil, que era modelo em criação de gado e cujo resultado final, após a invasão, poderá ser o retorno da maldita doença bovina ao Paraná.
E o Lalau? E a tal Jorgina do INSS? E o caso do jornalista que matou friamente a mulher? E o ex-presidente Collor? Esses e tantos outros exemplos que já se fizeram presentes nas páginas criminais por onde andarão? Será que alguém já providenciou estátuas a quem corajosamente os enfrentou e os colocou no devido lugar? E aqui em nossa Londrina? Onde está o Monumento Pés-Vermelhos, Mãos Limpas? Ou mesmo uma ruazinha chamada Cana Neles? Ninguém se lembrará de homenagear esses lutadores pela moralidade?
Enfim, lamento ser forçado a concluir que em certas circunstâncias, no Brasil é melhor ser bandido para acabar tendo seus feitos reconhecidos e gozar de algumas regalias.
- RICARDO PROCHET é professor universitário em Londrina
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