Aqui será exposta a idéia de que uma lógica do mais forte, do mais bem adaptado, permeia, permeou e sempre permeará os acontecimentos humanos, sejam eles sociais ou biológicos. Parte-se do princípio que o homem é um animal racional. Um ser vivo como outro qualquer: um cachorro ou uma planta. Só que ele pensa e possui, também, o que se costuma chamar de ''consciência''.

Como ser vivo, obedece à lógica da sobrevivência. Os mais aptos sobrevivem. A moral nasce e desenvolve-se para balizar os instintos primitivos, atávicos, criando-se, assim, condições de coexistência pacífica dentro e entre os grupos. Cria-se o Direito. Contudo, protegendo certas classes, instituindo privilégios etc.

O fato de ter-se evoluído moralmente a ponto de mulheres votarem, de serviçais poderem entrar nos elevadores da classe média (apesar do nariz torcido da madame ou da sobrancelha levantada daquele que paga o condomínio), da sua filha ou irmã poder casar-se com um negro, não significa que se esteja caminhando para um mundo onde a intolerância, o racismo e o sexismo sejam banidos peremptoriamente.

A dificuldade de aceitação do outro, a diferença, o estranhamento, a territorialidade são questões que jamais serão suplantadas pelos princípios morais. Vai-se empurrando com a barriga... Não se defende aqui a suspensão deles, mas apenas a necessidade de uma domesticação constante do bicho homem, sabendo-se, de antemão, que essa domesticação absoluta jamais será alcançada.

Pense-se agora na inteligência humana como expediente biológico; como estratagema próprio de um ser vivo para levar a vida para fora do planeta; para perpetuar a dinâmica e os processos vitais para além da finitude telúrica. Quando não mais for possível aqui se viver, sobreviver; quando o planeta estiver suficientemente aquecido e as questões sobre racismo, bioética ou PT não fizerem mais sentido, aí sim, teremos talvez evoluído um pouco mais.

O organismo humano, assim como o das formigas, borboletas e rinocerontes porém, projetado com mais sofisticação é responsável, por meio da mente inteligente, da racionalidade, pela construção de modelos salvacionais que garantam a permanência da vida fora de ''casa''. Nós, humanos, somos instrumentos inconscientes de um processo maior chamado vida. Toda a caminhada histórica da humanidade funda-se na evolução sociobiológica de primatas pensantes na terra.

A evolução da ciência é contígua à nossa própria sobrevivência, à necessidade dos organismos vivos perpetuarem-se, no futuro, fora do planeta, no cosmos. O ser humano é um projeto da vida, e não o inverso. Estamos subordinados ao imperativo biológico, amoral. A tentativa de se frear todo e qualquer processo de fabricação de inteligências superiores, de monstros geniais, por exemplo, é inútil.

A ética da ciência responde aos interesses de Estado e estes, por sua vez, aos interesses dos grupos e nações mais fortes, beligerantes e adaptadas, que, por seu turno, respondem automaticamente pela lógica da sobrevivência. A ética é o resultado da estratégia biológica na perpetuação da espécie. O ser humano, no seu constructo moral está subordinado às exigências do projeto vida. A moral e a ética respondem pelos interesses da sobrevivência.

A inteligência superior (real, artificial, virtual) é diretamente proporcional ao poder, ao domínio. Força, coação, imposição são consequências de um indivíduo, grupo ou nação que impõe sua vontade, sua lógica, sua ideologia, sua estética aos demais. A tecnologia é instrumento de dominação, de manipulação de informações, no sentido mais amplo possível. Jogos estratégicos são engendrados para a afirmação do melhor, do mais inteligente, rico, poderoso. É uma lógica inexorável.

Parafraseando Huxley, a democracia é a nobre toga com que certas nações acobertam sua ânsia de poder. E não poderia ser de outra maneira. Amor, solidariedade, compaixão, perdão são sentimentos e atitudes louváveis, mas sempre deixadas para segundo plano quando se trata da sobrevivência de um, ou da espécie. Pragmatismo, ceticismo e ciência são partes da mesma moeda, portanto, indissociáveis. Bioética parece ser conversa de cristãos, não de cientistas.

Se fóruns internacionais discutem o racismo, meio ambiente, clones, entre outros temas, instrumentos jurídicos nacionais e soberanos têm a capacidade de neutralizar os acordos resultantes desses encontros. O princípio da lei da vida diz que o mais apto, portanto, capaz intelectualmente, tece uma estratégia para defender os mais poderosos e inteligentes. Há um acordo tácito entre os melhores. Há uma escala de valor, sim.



- JOÃO LUIZ PEREIRA DAS NEVES é jornalista em Curitiba

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