Monica Lewinsky e o déficit - Antonio Vital
O que tem a ver Monica Lewinsky com o déficit dos Estados Unidos e com o relacionamento entre os Poderes Executivo e Legislativo no controle das contas públicas? Muita coisa. O caso da estagiária com o presidente Bill Clinton começou em pleno cabo-de-guerra entre a Casa Branca e o Congresso americano, no final de 1995, por conta do orçamento e do déficit do país. E as consequências do relacionamento se transformaram na continuação do mesmo cabo-de-guerra, que opõe democratas e republicanos e pode resultar no impeachment do presidente.
E o que a batalha entre Clinton e o Congresso americano tem a ver com as dificuldades do presidente Fernando Henrique em aprovar as reformas constitucionais que acha necessárias para diminuir os gastos do governo? É que os dois, Clinton e Fernando Henrique, acabaram de certa forma se beneficiando da oposição, por mais paradoxal que isso pareça.
No final de 1995, Clinton enfrentou a intransigência da maioria republicana no Congresso, comandada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Newt Gingrich. Fanático por controle de gastos públicos, Gingrich queria reduzir as verbas destinadas a programas de assistência médica muito populares como Medicare e Medicaid, que beneficiavam basicamente velhos e pobres.
Como nos Estados Unidos quem manda no Orçamento é o Congresso, só restava a Clinton vetar a proposta. Ao contrário do que acontece no Brasil, lá esse tipo de impasse, ao bloquear o Orçamento, bloqueia o dinheiro. Sem dinheiro, os funcionários públicos deixam de receber e são mandados para casa. Sem pessoal, as repartições param.
Nessa época, ninguém dava um dólar furado pelo futuro político de Clinton, que devia enfrentar uma eleição no final de 1996. Ele passava horas, sozinho, no Salão Oval da Casa Branca, tentando obter apoio. Foi aí que surgiu a estagiária Lewinsky e a história que se seguiu é pública, com direito a sessões de prazer durante telefonemas para parlamentares democratas. O presidente estava fragilizado, o governo parado. Mais uma enrascada para Clinton, o presidente de sete vidas? Pelo contrário.
Clinton capitalizou a crise de duas maneiras: culpou os republicanos pela paralisação do governo e, ao mesmo tempo, adotou na prática o discurso oposicionista de controle do déficit. Gingrich, eleito Homem do Ano 1995 pela revista Time, tornou-se a pessoa mais impopular do país. E Clinton, beneficiado por toda uma conjuntura econômica favorável, acabou se reelegendo com facilidade, meses depois, batendo outro líder oposicionista, o senador republicano Bob Dole.
No Brasil, o que era fragilidade do governo antes da crise econômica mundial se transformou em poder, mesmo que seja o poder do pastor que inspira nos fiéis o medo do inferno. Em quatro anos de mandato, Fernando Henrique não conseguiu aprovar a reforma da Previdência nem a reforma tributária. Terá que fazer isso agora Ä foi eleito com este discurso Ä ainda que a partir do próximo ano tenha contra si uma bancada oposicionista maior que a atual. Se não o fizer, atribuirá as consequências à oposição, que não tem nenhuma Monica Lewinsky para tirar o sono do Palácio da Alvorada.
- ANTONIO VITAL é jornalista em Brasília





