Mônica Kaseker
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de maio de 2002
Equipe da Folha 
A teoria pode arrepiar pais e psicólogos: um psiquiatra especializado em sono lança livro em que aconselha pais a deixar o bebê chorar para aprender a dormir
Quem tem filho sabe o que é passar noites em claro. Cólicas, fome, dente nascendo, relógio biológico desajustado ou simplesmente saudades da mãe. O problema é que às vezes esses motivos, aparentemente justos para que um bebê acorde várias vezes durante a noite, acabam criando um mau hábito de sono. Em casos extremos, algumas crianças chegam à idade escolar com distúrbios do sono que podem prejudicar o aprendizado e o próprio crescimento. Mas como lidar com esta situação? A resposta pode chocar os pais mais corujas e despertar a ira de alguns psicólogos. Para que um bebê aprenda a dormir, é preciso deixá-lo chorar.
A teoria não é nova entre pediatras e neurologistas, mas voltou a gerar polêmica com a publicação do livro Nana Nenê, do psiquiatra Eduard Estivill e da jornalista Sylvia Béjar, pela Editora Martins Fontes. Basicamente, os autores defendem que não se nasce sabendo dormir, é preciso aprender. E isso se faz com uma rotina que o bebê associe ao horário do sono, com a ajuda de agentes externos, como um bichinho de pelúcia, uma fralda de pano ou uma chupeta, aos quais ele possa se apegar para dormir. Todos as noites é preciso repetir o ritual: jantar, banho, historinha, canção e boa noite. O bebê deve aprender a dormir sozinho no berço.
Como os bebês, todos nós acordamos diversas vezes durante a noite, mas tão rapidamente que nem nos lembramos no dia seguinte, explica a neurologista Márcia Assis, do Hospital de Clínicas, que trabalha especificamente com a questão dos distúrbios do sono. Segundo ela, o que acontece é que, quando isso acontece com o bebê, ele não sabe como pegar no sono novamente. Assim, como em geral a criança associa o ato de dormir com a última mamada e o colo da mãe, toda vez que acordar de madrugada, ela vai querer colo e leite. Se oferecermos outras coisas que o bebê possa associar ao ato de dormir, ele não precisará mais da mãe três ou quatro vezes durante a noite, diz Márcia.
O problema é que até o bebê aprender que não precisa da mãe para pegar no sono, ele vai chorar pedindo sua presença, seu colo, seus seios. E aí está o ponto mais difícil em transformar a teoria na prática. O livro indica uma tabela de esperas, em que a mãe vai aumentando o intervalo para atender o bebê durante a crise de choro. Os intervalos variam de um a sete minutos no primeiro dia, aumentando nos dias posteriores até que se completem dez dias de treinamento. Não pode pegar o bebê no colo, balançar, cantar para ele, pôr no carrinho, muito menos dar mamadeira ou chá. Isso vale para o início da noite, todas as vezes que o bebê chamar de madrugada e também na hora das sestas durante o dia.
Apesar de garantir sucesso em 90% dos casos, a técnica tem alguns pontos negativos. É muito difícil para os pais deixar um bebê chorar até a exaustão e, além disso, é um método polêmico do ponto de vista da maioria dos psicólogos. Os terapeutas questionam, principalmente, sobre os traumas que podem ser gerados com a prática do deixar chorar.


