Momento rico, momento pobre
Estamos tendo, como nunca tivemos antes, um quadro de transparência sobre como as relações políticas, empresariais, jurídicas são estabelecidas neste país. O jogo do capitalismo patrimonialista, a mistura público-privado nas relações com o Estado, a defesa dos interesses corporativos os mais variados, as mentiras ideológicas, um capitalismo de compadrio, uma esquerda confusa.
Tudo está se desnudando e todas as máscaras estão caindo. Por exemplo, a corrupção. Sempre achamos que estivemos mais ou menos cientes sobre os níveis de corrupção neste país, mas jamais poderíamos imaginar sua proporção, com tantas empresas participando, com uma empresa montando um departamento em sua estrutura para se ocupar disto, as absurdas quantias envolvidas, o número de felizes apaniguados por este sistema. De acordo com executivos da própria Odebrecht, era comum a empresa procurar deputados e senadores, dentro do Congresso, oferecendo apoio em campanhas e em outros momentos da vida política nacional para obter vantagens.
Da impunidade sempre suspeitamos, mas nunca achei/achamos que esta tomasse a proporção que tomou. Processos parados por décadas na Justiça, estrutura jurídica montada para a impunidade, ou para os que podem pagar custas milionárias, enquanto pobres padecem por delitos mínimos em uma estrutura carcerária desumana, sem advogados. Relações de amizade, relações não republicanas, interesses vários, formando uma rede protetora para uma "elite" política e empresarial.
Caem as máscaras também das incoerências, pessoas tão aguerridas no passado recente no combate à corrupção agora se postando a favor dela, ou só se importando com a dos outros. O recado que dão é, pode ser feita desde que seja pelos meus. Parece que montaram, no Brasil, há décadas, um faz de conta político, com as divisões ideológicas apenas como fantasia para dividir o butim dos recursos do país para interesses alheios ao bem público. Cada partido fechou os olhos para as mazelas do outro. A Justiça vagarosa fechou os olhos para todos. Havia e parece que continua a haver um difuso acordo de cavalheiros para ninguém incomodar muito o outro, para que um não atrapalhasse (muito) a apropriação do bem público do outro.
Somente quando apareceram outsiders que romperam/rompem esse contrato, como o ex-deputado federal Roberto Jefferson e, por último, a Lava Jato, as coisas mudaram um pouco. Sob ameaça, o acordo de cavalheiros se rompeu. E nesse rompimento do trato, deixaram correr a Lava Jato enquanto os atingidos eram à esquerda. Mas agora esta chegou à tradição centenária, carcomida, aos mais antigos, duradouros e até então inatingíveis bastiões da elite política conservadora e empresarial (e com fortes indícios que corrupta) tupiniquim.
Então, todos correm para refazer o trato, em uma composição de quase todos os partidos de todos os lados do espectro ideológico. É um processo duro, angustiante, mas acredito que esse levantar de tapetes, nos possibilita uma visão muito mais clara do que é nosso país e nossa classe dirigente, de como funcionam, ou não funcionam, nossas instituições, como funciona, ou não funciona nosso capitalismo de araque.
Tempos mais duros estão por vir, mas acho que mais à frente, o cinismo e a hipocrisia do sistema poderão pelo menos diminuir e permitir correções de rumo. É um tempo pobre, mas também é um tempo rico. É chavão, mas é a expressão do que vivemos; o país está sendo passado a limpo.
Estamos conhecendo nossos representantes políticos, nossa Justiça, nosso poder Executivo, nossos executivos de colarinho branco, o verdadeiro caráter desses personagens que definem nossas vidas como nunca antes tivemos oportunidade de conhecer. Este é o verdadeiro jogo, senhores, e é o que é exatamente porque assim foi durante décadas. Só estava escondido. Parabéns aos outsiders! Que apareçam outros. Conhecimento é a grande riqueza que vai possibilitar qualquer mudança. É um tempo pobre, mas também é um tempo rico.
IVAN FREDERICO LUPIANO DIAS é professor de Física aposentado em Londrina
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br





