Momento para Governo Lula recompor-se
O presidente Lula não ganhará a simpatia dos brasileiros por lançar desafios do tipo quem fez mais pelo País do que ele. Porque todos sabem que suas realizações são de baixos teores e que nada de extraordinário aconteceu em seu governo, a não ser atribulações políticas, como a que agora domina o momento nacional. Quando um chefe admite situações de dificuldade e busca solucioná-las, a nação sente-se mais segura e com disposição para dar seu apoio, mas quando vê esse governante achar que tudo vai bem em sua administração, e a realidade não é esta, então as esperanças se esvaem e ele fica só. Já não se sabe, quando Lula chora (o choro na verdadeira acepção do termo), se o faz por sentimento ou por vaidades feridas ante alguma crítica. Esta segunda hipótese é a mais provável, a tomar por base o que ele sempre disse e acaba de repetir, que é a bravata do ''vamos ver quem fez mais''. Se a administração Lula pouco fez, deveria admitir isso, mas se não fez e afirma ter feito, lançando desafios para a comparação, então pouco resta a esperar de seu governo. Ontem o Presidente aceitou o pedido de demissão do ministro José Dirceu, e esse afastamento é um evento estratégico oportuno, ante clamores já insuportáveis vindos de fora e do próprio reduto governamental. Mas é preciso que mais gente saia e que o chefe do Governo comece a impor sua autoridade. Existem mais pedras de tropeço que precisam ser removidas e que são entraves neste Governo de superministros e de eminências demais. As notícias dizem que o presidente Lula apresenta sinais de depressão, e certamente afastar o companheiro Dirceu não o agrada, porque, para ele, isto significa vitória dos opositores. Porém, os motivos de depressão não deveriam circunscrever-se a fatos como este e sim a fracassos como o programa Fome Zero, a não-alteração do estado de penúria em que vivem milhões de patrícios, o desemprego, a violência, a não-ocorrência das grandes reformas anunciadas em campanha, a política dos juros altos mantida pela equipe econômica e sobre a qual o Presidente tem pouca ascendência, o enorme volume (e o serviço) das dívidas interna e externa, o sucateamento instalado de serviços estratégicos, o inchaço de gastos da máquina pública, e daí por diante. Este estado de coisas é que deveria tirar o sono do Presidente. Se Lula ousar tomar medidas corajosas, tanto na esfera política como na formulação de grandes projetos, tirando um pouco as atenções da redoma que o sufoca e governar também com as lideranças da nação fora do círculo de Brasília, encontrará fortes bases de sustentação e não ficará tão sozinho nos momentos de crise. Sem desprezo para a coexistência pacífica com a comunidade parlamentar sem a qual não governará e não verá nada aprovado o momento é para um pouco de ousadia pessoal do chefe do Governo, no sentido de dar aberturas para o desenvolvimento econômico e social, porque para isto lhe foram outorgados o cetro e a coroa, e é a ele, e a ninguém mais, que compete essa tarefa.





