Estamos a menos de um mês do início dos trabalhos legislativos que terão lugar num momento crucial para os enormes desafios que todos temos de enfrentar. Desemprego, violência, pobreza, fome, seca são alguns deles que mexem com a vida da maioria dos brasileiros. E a solução de problemas tão complexos por mais que, às vezes, se esqueça passa necessariamente por decisões políticas. É por isso que tenho dito que o futuro do País deve estar acima das conveniências do momento ou dos projetos pessoais. A garantia necessária à governabilidade pode não estar plenamente assegurada, mas ninguém quer ir contra o País. Até porque quando se perde as condições mínimas de governar a maior vítima não é o poder: são os brasileiros. E estes, em sua ampla maioria, desejam que todos colaborem.
Como líder do PMDB no Senado, minhas responsabilidades estão acima da vontade de ocupar a Presidência do Congresso. Sempre procurei trabalhar para construir a unidade partidária. Tenho o papel, também, de ajudar a combater os incêndios políticos para permitir que a manivela das mudanças se encaixe nos parafusos dos novos paradigmas da política. Mas não podemos abrir mão da dignidade política e não devemos nos amesquinhar na adulação. É hora de avançarmos pensando no dia seguinte e de construir a sustentação congressual necessária para aprovar as mudanças que ajudarão os brasileiros a deixar a pobreza e a fome para trás.
O governo, por sua vez, deve demonstrar força e maturidade para manter os acordos políticos na esfera partidária e institucional. Apesar de alguns equívocos ao longo do início deste processo, preferimos evitar o confronto e apostar na reabertura das conversas. Essa questão de que há um confronto entre PMDB e governo é falsa. O PMDB terá mais viabilidade na sustentação congressual. Fora disso, terá dificuldades. Uma parte do PMDB votou no Presidente Lula e outra quer reafirmar compromissos com as reformas e com a estabilidade. Quando você aproxima pessoas que estão em campos opostos, ganha a democracia e se amplia a sustentabilidade.
Nesta semana, ficou demonstrado que ninguém mudará a correlação de forças no Senado à força. E, desde o começo, trabalhamos com o cenário do acordo em torno das Presidências da Câmara e do Senado. Este implica o início de uma relação de alto nível entre o governo e os partidos. Uma relação que se dará espera-se no plano partidário, de forma impessoal. É isso o que desejamos também. E, nesse sentido, nós entendemos que qualquer candidatura só terá legitimidade se a sua escolha passar pela aprovação da bancada do PMDB. Esta é exatamente a grande oportunidade que tem o PMDB de construir a sua coesão interna.
Agora, não tenho dúvida de que essa unidade vai, de fato, implicar uma rearrumação das forças. É preciso, sim, abrir espaço para que outros grupos participem da direção do partido. Mas, para isso, há o tempo certo, que é a convenção do PMDB mais à frente. E não me parece que isso tenha de contaminar agora a discussão sobre as presidências da Câmara e do Senado.
RENAN CALHEIROS é líder do PMDB no Senado

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