Moldura da insensatez
Gaudêncio Torquato
O general Ibanez, ditador do Chile entre 1925 e 1931, contrariado com a desordem do mercado, ordenou a seu ministro da economia que abolisse, por decreto, a lei da oferta e da demanda. Não por acaso, ilustra o centro da galeria da ignorância e da insensatez. O presidente da Anatel, Renato Guerreiro, que deveria ter cobrado eficiência e preparo das operadoras telefônicas na implantação do novo DDD, pediu que os cidadãos reclamassem na Justiça seus direitos, mesmo sabendo que o gesto será inócuo. Ganha medalha de insensato. O presidente Fernando Henrique opta por uma reforma ministerial, quando a abulia governamental depende de seu estilo tíbio e inseguro de governar. A gasolina aumenta de forma abusiva, em momento de grande aperto popular. Nesses tempos de crise, monumentos suntuosos continuam a ser construídos para decorar o coração de administradores vaidosos, como uma praça em Brasília, aprovada pelo governo do DF, calculada em R$ 20 milhões. Por quê ocorrem coisas tão insensatas no campo da administração pública?
A resposta é: por causa de uma leitura equivocada da realidade. Quem assim pensa é Bárbara Tuchman, escritora norte-americana, em seu livro ‘‘A Marcha da Insensatez’’. Por estarem distantes da realidade, isolados do povo, alguns atores políticos fazem planos que contrariam seus próprios interesses. Vejamos o caso de Fernando Henrique. A reforma ministerial que realiza é um exemplo de leitura errada do momento. Sua postura é que deve mudar. A administração federal é uma colcha de retalhos. Falta comando e o presidente é o principal responsável pela desorganização do Executivo. Não serão novos nomes no ministério que darão harmonia ao governo. E demandas políticas não atendidas poderão desestabilizar a base governista parlamentar. Noutra ponta, impõe sacrifícios econômicos à população, recebendo, por isso, o ônus da perda de prestígio. Por último, sua administração não previu o bug de serviços públicos fundamentais, como o serviço telefônico. Ao apertar os três cintos do governo ao mesmo tempo - o político, o macroeconômico e o social - Fernando Henrique pratica um haraquiri imagético.
Desânimo e contrariedade tomam conta da população. Cidadãos confusos já não sabem em quem e em quê confiar. Os benefícios do gigantesco programa de privatização não chegam ao bolso do povo. Os benefícios do surto de modernização do país começam a ser questionados. Os partidos políticos, matando doutrina, dão as costas aos militantes e transformam-se em ‘‘catch-all parties’’ (‘‘partidos que agarram tudo que podem’’). O poder que, nas democracias, estrutura-se em torno das instituições, é, entre nós, personalizado e tem nomes de caciques e capitanias hereditárias. Não há novas lideranças em perspectiva e os velhos líderes perdem substância. O carisma vai embora.
No plano educacional-cultural, a sensação é a de estarmos num deserto. Não se ensina a pensar, nem a aprender a aprender. As estatísticas determinam o discurso. A escola ensina algo distante da realidade e a universidade reforça a departamentalização burocrática, formando profissionais por áreas. Plantam-se sementes de barbárie para cultivar mentes, muitas das quais vão compor a moldura de incapacitação das elites. A cultura ambiental está inoculada com o vírus do rendimento, orientada para o ganho, inspirada pela concorrência, embalada pelo ideal de produzir sempre mais para se consumir cada vez mais. O Brasil moderno está enclausurando o homem num ciclo da produção-consumo, tornando-o alienado, estrangeiro de si mesmo.
No declínio geral de valores e princípios, a banalização toma conta de comportamentos e dos maus costumes. A prática da pantouflage - membros da administração pública abandonando o emprego para ocupar cargos importantes na iniciativa privada - é generalizada. Frentes de trabalho são criadas para ‘‘dourar a pílula’’, desenhando a paisagem de centros urbanos com filas de emprego, que nada mais são que um esparadrapo social tampando rugas e protuberâncias da face dos governantes.
É uma estúpida moldura da insensatez que apequena os homens públicos e maltrata a alma do povo.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)
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