Moeda ecológica
Antoninho Marmo Trevisan
Nada melhor do que uma criança de 4 anos de idade para fazer a gente refletir sobre certas questões. Meu filho, Victor, me perguntou, depois de respirar profundamente, de onde vinha o ar. Respondi que vinha das plantas, das nuvens, da natureza em geral, mas fui pesquisar um pouco mais para saber quanto vale para uma nação a posse de amplas florestas, mares generosos e rios caudalosos.
Uma primeira descoberta é que parece existir uma relação de causa e efeito entre países desenvolvidos e os menos aquinhoados, quando se considera o quesito florestas naturais. Mais matas ficam com os mais pobres. Já, quando se busca determinar o grau de consciência ecológica, os países desenvolvidos são de longe os mais aguerridos defensores do verde. Podemos dizer que uns detêm mais capital natural, enquanto outros estão com o capital material.
Penso que, na maioria dos casos, não se pode substituir a natureza por elementos que não se renovam. É o caso, por exemplo, dos desmatamentos e da ocupação dos espaços no planeta. Retira-se a matéria-prima necessária para a existência humana - o ar - e se instalam fatores de produção que agridem esse espaço. As gerações futuras e os países mais pobres, retardatários no processo de desenvolvimento econômico, serão as grandes vítimas das consequências ambientais desse esgotamento e seus principais herdeiros, ficando com o encargo de suprir o planeta do oxigênio necessário para a sua existência.
Leio numa publicação da Fundação Konrad-Adenauer-Stiftung, que, na Alemanha, gastam-se 18 bilhões de dólares por ano com proteção ambiental, enquanto os danos ao meio ambiente chegariam a 120 bilhões de dólares. O mesmo texto, de autoria do Profº Paul Klemmer, especialista no assunto, sustenta que o limite econômico se daria quando os gastos com a proteção ambiental fossem equivalentes aos danos causados. Outro livro, publicado pelo Instituto de Pesquisa Aplicada, o IPEA, aponta formas alternativas para dar valor de mercado ao patrimônio ecológico de um país, baseado no impacto que a sua agressão representa para a humanidade. Da mesma forma, podemos concluir que a não-exploração de recursos naturais representa para seus proprietários a não-geração de renda atual.
É preciso, portanto, avaliar esse patrimônio intocável formado pelas matas e florestas brasileiras e incluir o seu valor nas contas públicas nacionais; em seguida, fazer corretamente a contabilidade e apresentar o balanço com os passivos, mas, principamente, com os ativos. Por que? Porque esta é a maneira que o mundo moderno entende as coisas. Não basta ir para reuniões na Suíça com um belo discurso de impacto político se o país e o presidente não sabem ou não querem dar valor ao que realmente tem valor. O competente trabalho do IPEA demonstra que as contas nacionais não levam em consideração a exaustão dos recursos naturais e que o cálculo do PIB só avalia os ganhos que se obtém com a exploração desses recursos.
Esta é uma boa questão, mas eu destacaria que, pior do que isso, é não contabilizar o intangível que os ativos ambientais representam para o Brasil. Como a metodologia para essa valorização é conhecida, imagine, caro leitor, o que seria para o Brasil divulgar seu patrimônio ecológico devidamente contabilizado e auditado! Teríamos uma nova moeda de troca que poderia somar mais de 1 trilhão de dólares, de aceitação incontestável pelos países do primeiro mundo e passaríamos a negociar nossa dívida, neutralizar ataques especulativos, além de realizar futuras operações de crédito a partir dessa moeda. Apenas a Alemanha gera um passivo ambiental de 102 bilhões de dólares todos os anos e está longe de ser um país tão dependente de áreas verdes, vitais para o equilíbrio ecológico e para a qualidade do ar e tão precioso que já passa a fazer parte das preocupações de um garotinho de 4 anos.
- ANTONINHO MARMO TREVISAN é presidente da Trevisan Auditores e Consultores

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