Não poucos antropólogos viram nas manifestações do Carnaval brasileiro uma forte e vigorosa mostra de capacidade de organização e que derruba um dos arquétipos mais batidos de que somos uma cultura colonizada e com reduzida capacidade de assimilação. Tanto o mestre Hélio Jaguaribe como Darci Ribeiro ou mesmo Fernando Henrique Cardoso viram na montagem-espetáculo das escolas de samba um feito excepcional de disciplina e aplicação, algo pela precisão da montagem um tanto quanto operístico, no sentido essencial do que isso como conjunto possa expressar.
Obviamente o Carnaval é manifestação importada, tanto que em seus primórdios imperava, por exemplo, bem ao gosto do colonizador, o chamado ''entrudo'' que era marcado por um folguedo grosseiro, uma espécie de ''pastelão'', com os participantes atirando uns nos outros farinha ou água suja e nos casos mais sofisticados ''limõezinhos de cera'' que continham perfume. Na verdade se tratava de um contraponto ao lado mais fino, elegante e rebuscado de tratar o outro com finura quando tentava perfumá-lo como se deu durante todo o tempo em que o lança-perfume inebriava os salões até ser afastado pelo mau uso que dele faziam os foliões como iniciação na droga, aspirando-o no lenço ou misturando-o à bebida. Fazia parte do ''decor'', compunha o ambiente, tanto quanto confetis e serpentinas.
Ao contrário do que os moralistas pensavam e diziam, o Carnaval não se constituía em traço negativo da vida nacional, mas de afirmação e sobretudo de autenticidade no reencontro de nossas raízes culturais mesmo quando submetidas aos exageros de samba-enredo com uma dramatização de fato histórico, às vezes atropelados pela colagem de situações um tanto quanto anedóticas mas nem por isso menos ricas em seu surrealismo. No passado mais distante os ranchos, que dariam origem às escolas de samba, tinham as suas próprias músicas quase sempre do repertório folclórico entre as quais a dramatização do Boi de Mamão.
É o Brasil multicolorido, cada região dando a sua contribuição específica ao lado dos macro-espetáculos, industrializados, de Rio, São Paulo, Bahia, Pernambuco, tal qual se dá, ainda que timidamente, entre nós.

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