Especialista em Linguística e Metodologias, Mestre em Estudos Interdisciplinares e Construção do Conhecimento, o professor Airton Pozo de Mattos, de Porto Alegre (RS), percorre o País ministrando treinamentos a professores e escolas. Em Londrina, como em boa parte das regiões pelas quais passa, Airton é sempre consultado sobre o tema em que é doutor: a cognição e o desenvolvimento humano.

Em entrevista à FOLHA, ele, que estuda as relações entre educação e neurociência, salienta a importância de professores renovarem a forma como os conteúdos são ensinados. Confira os principais trechos.

Às portas do início das aulas, no campo do desenvolvimento cognitivo, como se passar um conteúdo?
Primeiramente, devemos fazer cair por terra essa idéia de ''passar'' o conteúdo. Na verdade, todo conteúdo é uma construção, ou seja, nem sempre aquilo que imaginamos ou almejamos ensinar vai ser aprendido ou construído pela outra pessoa.

E as escolas, como agem atualmente?
Normalmente as escolas apregoam que a matéria tem de ser passada e o aluno é um depósito, que recebe e guarda essa matéria. Se atentarmos aos pontos de vista afetivo e emocional, podemos fazer com que o cérebro desencadeie todos os processos para receber bem as informações e transformá-las em um conhecimento mais profundo.

Qual o caminho para esse ''despertar''?
Trazendo situações reais, motivacionais, seja um filme, uma música, e, a partir das informações, retirar as estruturas a serem utilizadas para o ensino.

Os professores estão preparados para esta mudança?
Vejo a classe dos professores dividida em duas pontas. A primeira opta pelo modelo mais antigo, ou seja, de ''passar'' a matéria, de vencer conteúdos, mais preocupada com os resultados de seus alunos. Na outra ponta, há um outro grupo, que leva em conta a realidade atual, que mostra crianças, jovens e adultos com vivência e experiência. O adulto de minha época, que chegava ansioso para aprender, deu vez ao adulto informado, que já sabe de muita coisa. Nesse segundo grupo, temos professores preparados para traçar outros caminhos. Chamo isso de mapa mental para situações diferenciadas. É um percentual muito pequeno, ainda.

O senhor tem números dessa ''divisão''?
Nas pesquisas que fizemos, na região Sul, notamos que 87% dos professores mantêm o estilo clássico, de ''passar conteúdos''. No restante, em 7% a 13%, observamos uma modificação. O incipiente ainda é pequeno, mas a tendência ainda é de um mapa mental fora do tempo, que não acompanha as mudanças da sociedade.

Os professores têm de ser moldados? Em quanto tempo isso seria possível?
Não diria moldados. Onde há desenvolvimento, como no Paraná, essa conscientização, essa busca por uma mapa mental em consonância com o tempo é mais clara. Em Londrina, por exemplo, há muitas escolas e grupos de professores atentos e preocupados em desenvolver as formas de ensino. Em termos de tempo, creio que nos próximos cinco a dez anos teremos essa mudança.

Copiaria o modelo educacional de algum País?
Não. O Brasil apresenta características bem específicas, diferentes níveis e culturas, além de educadores capazes de desenvolver nosso próprio modelo. Não copiaria Europa, Estados Unidos ou Ásia.

No paralelo mercado de trabalho x formação profissional, como avalia o Brasil?
Há um descompasso entre o mercado e formação do profissional: enquanto o mercado exige um profissional flexível, multicultural, com capacidade, boa comunicação, entre outros aspectos, as instituições educacionais não estão formando esse tipo de profissional. Quando pressionamos as empresas para ter essa abertura, elas rechaçam. Há o temor de deixar a aprendizagem entrar nas organizações, que têm medo de, durante esse processo, deixar de ter resultados.

E quem se sobressai?
As empresas que contratam talentos, com perfis flexíveis, competentes e com grande capacidade cognitiva. Quem dá espaço e liberdade para criar, acaba triunfando. Diria que essas empresas estão conseguindo vencer, convencer e modificar o mercado, de maneira incisiva.

Esse ''extra'' a ser apresentado pelos profissionais é requisito ou diferencial?
A contradição que notamos é que as empresas dizem que é um requisito, mas a realidade aponta que é um diferencial. As empresas reclamam esse profissional com ''extras'' e habilidades diversas, pedem que a escola produza esse profissional, só que não conseguem absorvê-los, uma vez que muitos deles, para essas empresas, ''quebram'' com a estrutura e modelo de resultados. Conclusão: embora ser talentoso e apresentar um mapa mental seja pré-requisito, hoje está mais para diferencial. Talvez no futuro tenhamos um quadro de líderes e talentos mais extenso, em atuação.

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