Modernidade desigual, injusta e predatória
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Altair Aparecido Galvão 
Uma juventude culta, com
melhores perspectivas de
vida, dificilmente se
envereda pelos caminhos
da marginalidade
O Brasil é um país dotado de uma modernidade desigual, injusta e predatória quanto à sua tradição cultural, pois apresenta um cenário altamente controvertido no aspecto educacional. Historicamente, o desempenho do Estado como mediador dos desajustes socioeconômicos da sociedade sempre foi insatisfatório. Especificamente nas últimas quatro décadas, como o crescimento das demandas nas áreas de educação, saúde e habitação, em decorrência do desmedido crescimento populacional de nossas áreas urbanas, o abismo social que separa os ricos dos pobres cresceu exacerbadamente.
O processo de precarização do ensino básico e gratuito aconteceu graças a um conjunto de fatores negativos, a saber: a deterioração dos salários dos professores e de todos os profissionais ligados à educação; a má formação dos educadores diante do crescente e diversificado contingente de novos alunos; ao mau estado dos prédios e equipamentos educacionais; e, finalmente, ao fator que considero o mais pernicioso para o sistema educacional público, que é o vertiginoso crescimento das escolas particulares, subsidiadas com o dinheiro público, por meio de normas e leis aprovadas por deputados e senadores que compõem a bancada dos proprietários dessas escolas que, convenhamos, não têm nenhum interesse em ver a prosperidade do ensino público e gratuito.
O que podemos notar é que na prática não existe uma política educacional e por isso o ensino público tem vivido basicamente de improvisação. É visível também que a falta de uma política específica tem sido substituída por um sem-número de providências administrativas que em nada colaboram com a educação e, ao contrário, favorecem a sua deterioração. Para completar, volta e meia aparecem planos mirabolantes que nada mais são do que ideias ufanistas e irreais, muitas vezes desonestas, sempre tendo por trás algum grupo político que os utilizam para levar vantagens. Como resultado desse processo por vezes fraudulento, o nosso sistema educacional se apresenta com insuficiência de vagas - especialmente no ensino médio - e com baixa qualidade de ensino. Em suma, não temos escola para todos e a que existe não atinge o objetivo esperado.
Partindo do princípio que o ensino é um serviço essencial, entendo que o Estado deve fornecê-lo em sua excelência. Como não o faz, deve ser responsabilizado, tendo em vista que muitas pessoas são prejudicadas ao não poderem cursar uma universidade pública, uma vez que frequentaram o ensino fundamental e médio em escolas públicas, onde não aprendem o que é exigido nos vestibulares desses estabelecimentos superiores.
Talvez, se existisse uma lei que obrigasse aos detentores de cargos públicos a matricularem seus filhos em escolas públicas, esse quadro poderia ser revertido. Com efeito, se todos os professores de escolas públicas e funcionários públicos em geral, vereadores, prefeitos, deputados e senadores fossem obrigados a matricular seus familiares somente nessas escolas, com certeza iriam lutar pela causa desses estabelecimentos.
Para o educador Anísio Teixeira, ''toda a vida do homem se faz em educação e por educação'', ou seja, a boa educação faz parte da construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. Quando o Estado investe em educação e consegue aprimorar a qualidade de ensino público e gratuito, propicia a formação de jovens mais bem preparados para o mercado de trabalho. Além disso, uma juventude culta, com melhores perspectivas de vida, dificilmente se envereda pelos caminhos tortuosos da marginalidade.
ALTAIR APARECIDO GALVÃO é cientista social e mestre e doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Maringá


