Modernidade como substantivo - Marcos Sawaya Jank e Fernando Sawaya Jank
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de novembro de 1997
Marcos Sawaya Jank e Fernando Sawaya Jank 
O processo de exclusão tem preocupado muitos setores da sociedade. As discussões mais produtivas a seu respeito têm se centrado no futuro. Afinal, mais importante do que debater os porquês do processo (Globalização? Evolução da tecnologia? Ditadura do capital financeiro?) é refletir sobre as alternativas que a sociedade tem para resolver o problema, por meio do governo que elegeu.
Uma alternativa que tem sido considerada altamente indicada é o assentamento rural de indivíduos que perderam seus empregos rurais, ou mesmo urbanos - os excluídos dos atuais processos de produção patronais. Essa alternativa significa o estabelecimento de famílias em pequenos lotes de terra, desapropriados pelo governo. Não importa aqui a origem da terra. O fundamental é indagar: esse tipo de solução acaba com a exclusão dos beneficiados?
O que é exclusão? O que deve ocorrer para que o cidadão possa ser considerado incluído? Não há uma definição precisa, mas será que é apenas ter o que comer e onde dormir? Certamente é muito mais do que isso. É acesso a saúde e educação. É capacidade de consumir além das necessidades mais básicas. É capacidade de sobreviver na velhice e de criar os descendentes. É, por fim mas não menos importante, capacidade de progredir.
Sob esse ponto de vista, como avaliar a alternativa assentamento? No mínimo com certa preocupação, já que mesmo seus maiores defensores assumem que o potencial de alternativa não supera o atendimento às necessidades mais básicas do ser humano, teto e comida. Assim, é perfeitamente compreensível que muitos cidadãos sensíveis aos problemas sociais se coloquem em cima do muro, questionando a idéia contagiante do assentamento em massa, apesar de toda a atração causada pelos movimentos que o exigem. Atração oriunda da capacidade de unificar as esquerdas nessa época tão neoliberal.
Contudo, deixando de lado eventuais satisfações ideológicas, é bastante óbvio que não é o assentamento que vai promover a inclusão. Para que isso ocorresse, seria necessário que os assentados conseguissem muito mais do que apenas sobreviver. Seria necessário que conseguissem progredir e aí as coisas complicam. Basta lembrar que a agropecuária não é setor de expressiva geração de renda e, simultaneamente, olhar para o resto do mundo. A que conclusão se chega? Que, nas sociedades mais desenvolvidas, mesmo às custas de dezenas de bilhões de dólares anuais de subsídios, o setor agropecuário não consegue manter muito mais do que 5% da população em condições civilizadas de existência no campo - ou seja, incluídos.
Como, então, aceitar que uma sociedade ainda relativamente pobre como a brasileira pretenda manter os atuais mais de 20% da população no campo e ainda exigir que toda ela seja incluída? Pois, naturalmente, a alternativa assentamento significa a redução (ou mesmo a reversão) do fluxo campo-cidade. Além disso, lembremo-nos de que em média o setor agropecuário nacional é bem menos produtivo do que o dos países desenvolvidos (até pela baixa qualificação média do agricultor brasileiro), tornando-o também menos capaz de gerar renda.
O campo não será, portanto, o responsável pela inclusão. Não porque não a deseje, mas porque não tem como a sustentar. Há quem alegue que essa situação decorre de uma forma indesejável de modernização do meio rural. Ora, certamente, ela é consequência da modernidade. Mas não da modernidade como adjetivo, como qualificação de algo que se pode optar por ter ou não, como um aficcionado por música que pode optar por continuar ouvindo discos de vinil porque a modernidade dos aparelhos de CD lhe fere os ouvidos. Pelo contrário. A modernidade de que se trata aqui é substantiva e inescapável: o mundo mudou, a tecnologia mudou, o mercado mudou, o Brasil faz parte do mundo, tem de jogar dentro das novas regras. A modernidade é simplesmente o novo. No caso, o novo ambiente-econômico.
Sem dúvida, iniciativas altruístas voltadas a problemas locais, como aquelas adotadas por algumas ONGs e sindicatos, têm enorme valor. Mas não adianta ter comportamento de avestruz. É preciso encarar os grandes números de frente: potencialmente, cerca de 15% da população brasileira deverá sair do campo nas próximas décadas e de alguma forma ser incluída no meio urbano. Talvez, nesse sentido, as centenas de ONGs e sindicatos espalhados pelo país ajudariam muito se apoiassem uma revisão da anacrônica legislação rural, que tem apressado a expulsão de trabalhadores no campo; se apontassem soluções factíveis para superar o nível miserável de subsistência verificado na maioria das propriedades familiares brasileiras; se incentivassem a criação de cooperativas modernas de trabalhadores, entre outras ações.
É por isso que é fundamental que os interessados neste debate entendam e assimilem o conceito exato do que se costuma chamar de agribusiness ou complexo agroindustrial. Este termo nada mais é que um marco conceitual que procura delimitar os sistemas integrados de produção de alimentos, fibras e biomassa, nos quais todos os agentes que se propõem a produzir matérias-primas agropecuárias devem fatalmente se inserir, sejam eles pequenos ou grandes produtores, agricultores familiares ou patronais, fazendeiros ou assentados. Por fim, é preciso entender que estudar e debater essas questões não é uma disputa infrutífera, como pregam alguns, e sim uma ação fundamental numa sociedade ainda imatura, que busca melhorar as suas relações cidade-campo e, infelizmente, tem sido bombardeada por chavões midiatizados e sensacionalistas, que pouco contribuem para solucionar os problemas atuais e, menos ainda, para antecipar os problemas do futuro.


