Assistimos a tudo, ou quase, durante uma campanha eleitoral, sobretudo às promessas mais mirabolantes e aos ataques furibundos entre os candidatos. A campanha para a Presidência da República traz este ano um componente novo, correlato porém digno de atenção, pois está promovendo o mais espetacular dos milagres da fé, que é a conversão de um homem que pautou sua vida no ateísmo. Fernando Henrique Cardoso, o racional, o ateu declarado, tornou-se temente a Deus.
Aleluia! Nosso presidente-sociólogo, que em 1985 cometeu o pecado mortal de declarar-se ateu convicto - e por isso foi punido com a perda da prefeitura de São Paulo - está passando pela segunda fase da transformação que o acompanha desde que assumiu o comando do País. Primeiramente, a realidade - ou outro motivo de força maior - levou nosso presidente a tomar atitudes que se chocavam frontalmente com as idéias que o consagraram como o ‘‘príncipe’’ da sociologia brasileira. E como, na maioria das vezes, são os atos que consolidam as idéias do ser humano, o sociólogo da esquerda se comporta e pensa hoje como se comporta e pensa Antônio Carlos Magalhães, arauto e encarnação da direita brasileira.
A segunda transformação, que se seguiu à das idéias, está ocorrendo no espiritual. Embora os atos de um presidente tenham que se limitar ao prosaísmo do dia-a-dia, a abertura intelectual de Fernando Henrique conduziu-o a ser mais flexível em relação a seu dogma mais caro, o ateísmo, e agora o vemos apelar publicamente a Deus para a solução dos problemas nacionais. O presidente não fez ainda, pelo menos por enquanto, um auto de fé das idéias que marcaram sua carreira de intelectual - assim como faziam os hereges ou suspeitos de heresia que queriam escapar da fogueira da Inquisição - mas no terreno espiritual, talvez menos exigente que os meios acadêmicos, ele saltou de um extremo a outro.
O último final de semana foi revelador da nova disposição mística de nosso presidente. Fernando Henrique fez uma pausa em seu proselitismo reeleitoral e visitou, em Juazeiro do Norte, Ceará, na sexta-feira, a igreja onde está sepultado o corpo de Padre Cícero, ‘‘mártir’’ nordestino. E lá, no recinto sagrado do templo, nosso presidente pediu ‘‘humildemente’’ a Deus para que resolvesse o problema do desemprego no País.
Quanto deve ter custado a um homem até pouco tempo atrás pautado estritamente pelo racionalismo e pelas frias teorias sociológicas este ato de subordinação a um poder invisível, etéreo porém superior? Não importa, quanto mais dor tenha provocado essa conversão, quanto mais esforços tenha custado para que ela fosse revelada à Nação, mais valor ela possui, mais valoroso é o homem que renega o Mal para curvar-se ao Bem.
Fernando Henrique ainda não foi ungido pelo óleo santo da conversão, e não sabemos se um dia o será, pois sempre lhe restará o dilema: se, além de admitir a crença em Deus, decidir professar uma religião, este ato, por mais meritório que seja aos olhos do Altíssimo, poderá lhe custar muitos votos e talvez comprometer sua missão temporal, que é governar o Brasil pelos séculos dos séculos. Pois, infelizmente, em matéria de religião, quando se satisfaz a um grego se desagrada a milhares de troianos...
Talvez por levar em consideração as futuras dificuldades, as armadilhas que espreitam a vida de um cristão novo, Fernando Henrique - o lado racional do Fernando Henrique, que nem a fé conseguiu ainda neutralizar - esteja desenvolvendo uma estratégia que poderá nos apanhar desprevenidos, de preferência poucos dias antes de 4 de outubro, quando o destino dele - e nosso - será selado nas urnas.
Um dia depois de visitar o túmulo de Padre Cícero, Fernando Henrique esteve em Russas, também Ceará, que não era visitada por um presidente há mais de um século. E lá, talvez por um ato falho, talvez obedecendo rigorosamente a um planejamento milimétrico, nosso presidente fez a maior, mais portentosa, mais incrível de todas as promessas de sua campanha eleitoral. Prometeu que, caso seja reeleito, irá acabar com o flagelo da seca.
Noves fora os detalhes que acompanharam esta declaração - ou blasfêmia - perguntamos: teria Fernando Henrique se curvado à existência de Deus depois que se convenceu, ou foi convencido, que Deus não é invenção de incautos, ingênuos e iletrados, mas é de carne e osso, usa óculos, é casado, foi professor, é poliglota e presidente da República e, por acaso, chama-se Fernando Henrique Cardoso?
Modere-se, senhor presidente, modere-se.
- JOSÉ ANTONIO PEDRIALI é jornalista da Folha

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