Moderado otimismo - Antonio Delfim Netto
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de abril de 1999
Antonio Delfim Netto 
Devo uma satisfação aos leitores que me perguntam por que, desde há algumas semanas, mudei de atitude em relação à política econômica: da condenação veemente, ao apoio benevolente. Seria apenas por causa da mudanças de rumos da política cambial? Afinal, dizem, a recessão continua brava, os níveis de desemprego não cedem, os juros continuam na estratosfera, os impostos crescem, enfim, nada de bom aconteceu na vida dos cidadãos capaz de estimular uma expectativa positiva. Essa é a perturbadora realidade de hoje, mas, pela primeira vez depois de 50 meses de delírio cambial, há motivos para alimentar um discreto otimismo quanto à possibilidade de recuperação da economia.
Até a primeira quinzena de janeiro, quando se deu a derrocada da velha política cambial, a probabilidade de superar a crise econômica e social era igual a zero. Não é necessário recorrer a grandes conhecimentos da teoria econômica. Basta usar um pouco de lógica. A economia brasileira se confrontava com dois problemas básicos: um desequilíbrio interno, evidenciado pela enorme taxa de desemprego, após quatro anos de política cambial caduca e taxas de juros suicidas que bloquearam o crescimento da produção e das exportações; e um desequilíbrio externo, representado pelo crescimento do déficit em conta corrente que logo se revelou impossível de ser financiado. Para resolver os dois problemas, precisávamos de dois instrumentos de política, a fiscal e a cambial. Enquanto estivemos presos à rigidez cambial, ao governo só restava um movimento, que era o corte do déficit fiscal. Com um única política, a probabilidade de resolver os dois problemas era igual a zero. Essa era a razão pela qual eu insistia na mudança do regime cambial, pois os desequilíbrios não paravam de crescer e era apenas questão de tempo a eclosão da crise de pagamentos externos. Todos devem estar lembrados que, durante praticamente todo o período de 1995/1998, o governo resistiu à lógica, mantendo a rigidez cambial e expressando a esperança de que ia corrigir os desequilíbrios pela única via do ajuste fiscal.
Com a flutuação do câmbio, recuperamos a possibilidade de usar duas políticas para resolver os dois problemas. Voltei a ter esperanças, a partir de janeiro, de que poderemos corrigir os desequilíbrios a que me referi. Se antes a probabilidade era igual a zero, pelo menos agora temos 50% de chance de resolvê-los. A taxa cambial em equilíbrio vai estimular as exportações e inibir importações, reduzindo a dependência de financiamento externo do déficit em conta corrente. As taxas de juros interna podem baixar (já estão caindo, embora com lentidão exasperante), abrindo caminho para a reativação da economia e da oferta de empregos. O Congresso aprovou as medidas de ajuste fiscal e cabe agora ao Executivo implementá-las para estabilizar a relação Dívida Pública/PIB.
Esses objetivos são factíveis, os instrumentos estão disponíveis, a inflação não fugiu ao controle e não há muita divergência quando aos caminhos para vencer a crise. Há, portanto, motivos para um moderado otimismo, numa perspectiva de dois ou três trimestres à frente. Difícil vai ser sobreviver nesse período. Mas estou convencido que não nos resta alternativa a não ser ajudar este governo a se redimir dos incríveis erros cometidos no passado recente.


