A forma como produzimos e consumimos no mundo, está totalmente démodé! É um grito que brada aos céus! Desperdiçamos cerca de um terço da produção mundial deixando setecentos milhões de famélicos. Uma loucura perversa, que vai da fazenda até aos sacos de lixo em nossas casas, passando pela água e energia. Só de pão, são 118 milhões de toneladas ano no mundo jogadas fora! No Brasil fala-se em 10% desse simbólico produto, desperdiçado.

Quando percorremos as páginas da Bíblia, entre tantas novidades civilizatórias que ali surgem no intervalo de pouco mais de 800 anos, uma nos fascina: o acúmulo, é sempre fonte de desgraça e morte! Os bens da criação são para todos e o açambarcamento por parte de minorias, é condenável do Génesis ao Apocalipse. O modelo de mundo que Deus sonhou, está anos-luz distante do que vem sendo apresentado pelos homens. E mais: essas minorias são de uma avidez insaciável na destruição de recursos naturais, provocando como consequência direta e lógica, o desperdício e a pegada ecológica gigante! A Bíblia não ensina somente a orar! Ela orienta para um projeto de sociedade composta de homens livres de todas as amarras e onde cada um, sem exceção, tenha um lugar ao sol. Ela não proíbe a propriedade particular, mas deixa claro que “pesa sobre ela um ônus social”, como bem lembrou várias vezes o Papa João Paulo II. O povo de Israel, sentia a responsabilidade de ser porta-voz dessa vontade divina. O profeta Amós especialmente, como tantos outros, deixou claro que as lideranças ignoraram sumariamente a vontade do Criador e isso foi fonte de miséria e tragédia.

A humanidade já experimentou ao longo da história vários modelos de organização social que refletiram opções ideológicas diversas. Pessoalmente não conheço nenhum perfeito; nem entre os dois mais conhecidos, o capitalismo ou o comunismo! Aliás, apesar desses dois termos se imporem no imaginário de pessoas da minha idade, sabemos que qualquer um deles tem inúmeras variáveis, mais ou menos palatáveis e justas, no sentido amplo. Nos tempos de Tony Blair, primeiro ministro britânico, chegou a se defender uma “terceira via”, já apontada mais de uma década antes por Bill Clinton nos EUA.

Hoje, com o avanço da extrema direita e o exaurimento do Estado, os freios a um capitalismo dilacerante e selvagem, parecem quase inexistir. O Mercado, com as suas leis próprias, tornou-se sujeito visível e ostensivo na elaboração das políticas econômicas de qualquer governo ocidental e no caso chinês, o Estado se traveste de Mercado ou vice versa, para atingir iguais resultados (a China tem 6 milhões e meio de milionários, só perdendo para os EUA)! Seja como for, aqui ou lá, o modelo é exclusivista e determina quem pode sentar à mesa do banquete! Não existe no mundo atual nenhum sistema político-econômico que apresente soluções cabíveis que eliminem o desperdício e a fome.

Contudo, hoje, mais de 20 países já respiram com os seus jovens empreendedores, a chamada Economia de Francisco. Inspirada em S. Francisco de Assis, foi lançada pelo saudoso Papa homônimo. Busca-se acelerar o desenvolvimento de um sistema econômico que priorize a dignidade humana, a justiça social, a paz e o respeito ao meio ambiente. Essa juventude acredita na utopia de mudar este sistema falido gerador de exclusão e morte. Os adultos, desta vez, precisam sair da sala da economia e dar lugar a mentes sonhadoras! O Planeta Terra produz alimento para cerca de 10 bilhões de terráqueos. É escandaloso que apelemos para controle de natalidade como meio de alimentarmos a todos! Somos hipócritas, maus e gozadores, e principalmente mergulhados numa “indiferença globalizada”!

Pe Manuel Joaquim R. dos Santos

Arquidiocese de Londrina

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