Como o terapeuta ocupacional poderia apresentar o brincar a serviço da criança que apresenta deficiência física? Qual o seu papel? E o papel dos pais? E a inclusão existe, de fato? Terapeuta ocupacional, Maria Madalena Moraes Sant'Anna traz o profissional como peça-chave, nesse processo. Responsável pela tradução do livro ''O Modelo Lúdico'', de autoria da terapeuta ocupacional francesa Francine Ferland, Maria Madalena, a ''Tia Madá'', para seus pacientes, fala um pouco mais sobre o Modelo, que prega o brincar como fator determinante no desenvolvimento da autonomia e do relacionamento da criança com deficiência física.

Hoje, fala-se muito do Modelo Lúdico aplicado à criança com deficiência física. Explique.
Trata-se de uma abordagem que traz a pergunta: por que a criança com deficiência física tem poucas possibilidades de brincar? Traz, também, como os profissionais que tratam essa criança vêem o brincar. A partir disso, o terapeuta ocupacional desenvolve, na criança, a capacidade de brincar. O Modelo Lúdico tenta trazer à criança o espaço de brincadeira.

E como trazer esse espaço?
O Modelo Lúdico apresenta o espaço em que a criança pode trazer a fantasia. Não é necessária a capacidade motora, pois se tem que adaptar as atividades para que a criança brinque. Nessa abordagem, se a criança não brinca dos 2 aos 6 anos, principalmente, o desenvolvimento psíquico é comprometido. Nesse modelo, se a criança desenvolve a capacidade de agir, obtém, também, o desenvolvimento de sua vida. A capacidade se baseia na ação, no interesse e na atitude dessa criança. São os três elementos a serem desenvolvidos.

E o papel dos pais, nesse processo?
Para o pai, é muito difícil. Os pais alegaram, em minha pesquisa, descansarem, por exemplo, aos finais de semana, ''de tanto levarem seus filhos à terapia''. Muitos pais também não sabiam quais os brinquedos favoritos de seus filhos.

Mas esses pais são omissos?
Não, de forma alguma. O problema não é o pai que não brinca. Somos nós, profissionais, que não mostramos a esses pais que as crianças têm capacidade para brincar. Muitas vezes, para a criança brincar, você tem que dar condições para tanto.

E os resultados desse brincar?
Nosso trabalho é de causa e efeito. Desde o momento que a criança vê que cada atitude dela desencadeia uma ação, a face muda, a disponibilidade é outra. A partir daí, é possível, para o profissional, entrar com os objetivos traçados para a criança. Em meu consultório, as crianças vêm para brincar.

Hoje, fala-se muito da inclusão para pessoas com deficiência...
A inclusão ajuda muito, se for feita de maneira gradativa. Agora, essa inclusão, dada pela Lei, feita ''de cima para baixo'', não funciona. Vemos, hoje, o sofrimento da criança, da escola, do professor...

A inclusão existe, afinal?
Dentro dessa ''inclusão'', acaba por haver a exclusão. Na teoria tudo é lindo, mas na prática...

E qual a saída?
A saída é ver o que aquele indivíduo está precisando em determinado momento e ter o olhar para saber: num momento, ele pode precisar da escola específica, no outro, da escola regular. O que não se pode é adotar uma idéia coletiva, como se todos fossem postos dentro de uma caixa. Precisamos dar subsídios para os professores e pais. A inclusão está caminhando, mas não será nossa geração que verá essa inclusão plena, em prática.

Serviço: A canadense Francine Ferland, autora de ''O Modelo Lúdico'' citado e traduzido por Maria Madalena Moraes Sant'Anna, estará em Londrina em 12 de novembro para palestra intitulada ''Os avós nos dias de hoje: Prazeres e armadilhas'', no auditório do Colégio PGD. Outras informações: (43) 3372-7555

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