MOBILIZAÇÃO SOLIDÁRIA - 'A messe é grande e os operários são poucos'
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domingo, 23 de novembro de 2014
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
A Pastoral da Pessoa Idosa (PPI), sediada em Curitiba e que no último dia 5 completou 10 anos de fundação, nasceu quase por acaso. Em um dia de 1993, Zilda Arns, que anos antes havia criado a Pastoral da Criança, e o médico João Batista Lima Filho, de Cornélio Procópio (Norte Pioneiro) e então presidente da Sociedade Paranaense de Geriatria, estavam no mesmo avião que fazia a rota Londrina-Curitiba.
Em razão do mau tempo, não foi possível pousar na capital paranaense. O avião foi deslocado até Maringá. Com a demora, Lima e Zilda iniciaram uma conversa. Durante o voo, no período em que o avião ficou parado na pista em Maringá e no saguão do aeroporto da Cidade Canção, falaram da ideia de criar uma entidade voltada para a terceira idade, com perfil semelhante ao da Pastoral da Criança.
Pouco a pouco, a PPI foi ganhando corpo. Em 1994, a iniciativa ganhou a chancela da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 1996, foi criado o programa Terceira Idade na Pastoral da Criança, a princípio apenas no Paraná, e depois levado a todo o Brasil. Em 2003, os idosos foram o tema da Campanha da Fraternidade da CNBB. Por fim, no ano seguinte, houve a criação formal da PPI.
Os voluntários da pastoral, também chamados líderes comunitários, visitam pessoas idosas periodicamente. Eles orientam sobre cuidados com saúde e nutrição, promovem atividades de socialização e encaminham os idosos para serviços públicos e para órgãos competentes para o recebimento do Benefício de Prestação Continuada (BPC), entre outras ações. Hoje, aproximadamente 18 mil líderes da PPI atendem 140,4 mil idosos em todo o Brasil. O Paraná é o primeiro colocado em número de idosos atendidos, 25,4 mil ao todo.
Em entrevista à FOLHA, Lima fez uma avaliação dos 10 primeiros anos da PPI e falou sobre os desafios para o futuro.
Que balanço o senhor faz desses 10 anos de atuação da PPI?
O principal avanço foi a mobilização nacional de uma missão a favor da vida das pessoas idosas, elas serem reconhecidas enquanto cidadãos com dignidade. Até então, o único segmento da sociedade que visitava pessoas idosas eram os agentes comunitários de saúde no seu trabalho dentro da estratégia de saúde da família. Outra questão foi que nós detectamos na Campanha da Fraternidade que na sociedade como um todo o grande problema que tínhamos e que ainda existe é o preconceito latente. Isso independe de classe social. Um tempo atrás, saiu uma foto da atriz Betty Faria de biquíni na praia do Leblon e nas redes sociais a chamaram de velha para baixo. A Campanha da Fraternidade trabalhou nesse sentido, e me parece que as comunidades estão tendo uma melhor aceitação e uma maior desenvoltura para quebrar o preconceito em certas situações.
Qual é a maior carência no atendimento ao idoso no Brasil hoje?
Nós trabalhamos com indicadores, se as pessoas idosas fazem atividade física, se bebem líquido suficiente, se estão com as vacinas em dia, orientamos sobre prevenção de quedas. Não são indicadores de saúde ao pé da letra, mas eles avalizam alguma coisa. Os idosos dependentes, que são aqueles que não conseguem comer, andar, se lavar ou se vestir sozinhos, que não conseguem sair de casa, em uma população de idosos respondem por algo em torno de 14% a 15%, segundo instituições internacionais. Nos dados da PPI, coletados por voluntários, que não são profissionais de saúde, a quantia de dependentes está em 12%. Então, se há hoje no Brasil 26 milhões de pessoas idosas, há necessidade de uma política pública urgente para o idoso dependente, a chamada política de cuidados. Porque hoje nós temos muito 8 ou 80. Ou fica em casa ou leva para o hospital. Estamos precisando de modalidades intermediárias de atenção para a pessoa idosa, como, por exemplo, os centros-dia.
Como é a interlocução da PPI com o Estado?
Nós contribuímos enquanto instituição nas políticas públicas. A PPI faz parte dos conselhos. No Paraná, em praticamente todos os conselhos municipais a PPI está presente. Nos conselhos estaduais de todo o País, está praticamente em todos, e nós temos cadeira e assento no conselho nacional. Então a gente tem como sinalizar para órgãos públicos o que está acontecendo nas bases do Brasil. Além de tudo, nós temos tido uma atenção muito grande aos indicadores de óbitos. Dos idosos visitados, algo em torno de 1% falece por mês. A atenção que o líder dá ao passar na casa, para visitar o idoso em estado terminal e depois no apoio à família, tem sido muito significativa para essas mortes não ficarem no esquecimento. É preciso tratar com dignidade as pessoas idosas e toda a sua família.
Qual é o maior desafio da PPI hoje? Existe dificuldade para angariar voluntários?
O desafio interno é conseguir mais voluntários. No palavreado da Igreja, a messe é grande e os operários são poucos. Não temos um número de voluntários condizente com a demanda. Para ser voluntário, não é preciso necessariamente fazer visitação. A pessoa pode exercer atividades de apoio, de capacitação. Existe uma dificuldade porque a noção de voluntariado do brasileiro é muito do "eu". Não é muito de se preparar para atuar de acordo com a forma como a instituição trabalha. A alma da PPI é a visita domiciliar. Então, tem todo um critério, o voluntário tem que fazer uma preparação, saber quem vai visitar, como vai ser. E boa parte das pessoas, quando chega nesse ponto, diz: "Ah, não sabia que era isso. Eu pensei que poderia ir qualquer dia". Cada um quer fazer da sua maneira. Então o crescimento (do número de voluntários) é muito lento. E em muitos movimentos da sociedade hoje a criança atrai muito mais simpatia do que a pessoa idosa. Muitas pessoas têm procurado outras formas de voluntariado do que visitar pessoas idosas, o que reflete o problema do preconceito que eu mencionei. Outra questão é que uma atuação fundamental da PPI é fazer pontes entre as pessoas idosas e os serviços públicos. Mas os serviços na sua maioria são para idosos saudáveis. Nós tivemos a campanha do Outubro Rosa, agora temos o Novembro Azul, é uma maneira da pessoa idosa se prevenir, fazer seus exames. Existe a ponte. O que não tem é serviço para aqueles 12% (de idosos dependentes), e o líder muitas vezes fica apertado, em vez de visitar dez acaba se dedicando só a um. Hoje, umas cinco pessoas em Londrina devem estar tendo alta após terem sofrido derrame. Aí começa o problema.
O idoso vai chegar em casa, não vai mais conseguir ser o gestor da casa, vai precisar de fisioterapia, que ele precisa fazer diariamente, mas o sistema só consegue colocar uma vez por semana. A família tem dificuldade para deslocar o idoso até um centro de saúde de referência. A pessoa sai do hospital muitas vezes mal orientada sobre os cuidados em casa. Tem que dar banho, colocar fralda, sonda. De um dia para o outro, a pessoa geria tudo, e agora é vítima de uma doença e está acamada. Não existe uma política de cuidados. Isso gera uma angústia muito grande no líder porque ele fica de mãos amarradas e não tem como resolver. Não há problemas quando o idoso é saudável, o problema é quando ele tem uma doença incapacitante.
Como avalia a política nacional de atenção ao idoso?
A coordenação de políticas para o idoso, no meu ponto de vista, está no ministério errado. Na Secretaria de Direitos Humanos (da Presidência da República), se um seringueiro hoje na Amazônia, no Acre, sofre maus-tratos, se tem algum problema com ele, rapidamente desloca "n" estruturas para dar o apoio. Mas aquele idoso que sofre um derrame, que eu citei, não é alvo da secretaria. Na secretaria, há muitos conselhos e comissões, e a coordenação da Política Nacional do Idoso é apenas mais uma. A solução seria a criação de uma secretaria nacional ou ministério que cuidasse das questões do idoso. Toda a política nacional do idoso foi formulada principalmente por assistentes sociais, nas décadas de 1960 e 70, e está fundamentada em políticas de articulação. Isso foge à nossa cultura, em que você monta uma secretaria ou ministério, e ele tem que ter verba para poder ter seus próprios programas. A questão política do idoso transcende isso. Ela foi formatada para que a coordenação da Política Nacional do Idoso, em termos de gerência, seja uma articuladora, faça com que funcione no Ministério da Saúde, no Ministério das Cidades, do Turismo, Ciência e Tecnologia, Educação. Esse papel não tem sido cumprido pela secretaria, porque há mudanças muito frequentes da coordenação. Em geral, eles convidam alguém que, quando começa a entender a dinâmica da questão do idoso no País, já muda de setor. O conselho não tem "caneta". Isso pesa muito para quem trabalha na base. Muitas políticas nacionais ainda estão no papel. As políticas públicas para o idoso nos municípios e Estados são melhor desenvolvidas do que a nacional. Só que quem tem o grande volume de recursos e poderia aplicar em ações que poderiam resultar em melhoria de qualidade de vida para a população idosa está sem articulação em nível nacional. Quem está fazendo com que a expectativa de vida do brasileiro aumente não são as políticas públicas (federais). Isso se deve à decisão pessoal de cada um. É uma vitória do cidadão brasileiro e de instituições, como o Sesc, locais de permanência e que cuidam de pessoas idosas, clubes de prefeituras, centros de convivência e principalmente da imprensa. Se a imprensa não desse visibilidade às pessoas idosas no sentido de exigir uma atenção maior, tudo estaria muito mais atrasado.


