Em uma cidade com aproximadamente 40 mil habitantes, os "miados" simbolizam o resgate da cidadania. O grupo "Gatos Pingados" fez história em Jacarezinho, no Norte Pioneiro, e ficou conhecido nacionalmente pela pressão popular criada para evitar o aumento no número de vereadores. Após o episódio, os "miados" foram contrários ao reajuste dos salários dos que serão eleitos para a próxima composição da Câmara Municipal.

Por fim, o número de vereadores não aumentou e os salários para a próxima legislatura foram até reduzidos, de R$ 6,2 mil para R$ 4.340. A partir dos primeiros "miados", surgiu o Observatório Social Todo Poder Emana do Povo, que deu início ao acompanhamento das ações na Câmara e na Prefeitura de Jacarezinho.

Em entrevista à FOLHA, o secretário do Observatório, Silvio Marcondes, ressaltou que o primeiro semestre de atividades já resultou em uma economia de cerca de R$ 200 mil aos cofres públicos, por meio das licitações fiscalizadas.

O grupo foi indicado ao Prêmio Faz Diferença, promovido pelo jornal O Globo em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). Na categoria País, os concorrentes eram a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia e a vencedora do prêmio Inês Etienne Romeu, militante política presa e torturada durante a ditadura militar. Inês foi a única sobrevivente da chamada Casa da Morte, local clandestino montado pelo Centro de Informações do Exército (CIE) em Petrópolis. Mesmo sem terem ganho o prêmio nacional, os "Gatos Pingados" pretendem incentivar e ressaltar ainda mais a importância da participação popular na vida política do País.

Como foi o processo de criação do Observatório Social de Jacarezinho?
Jacarezinho tem dois momentos: um antes do Observatório e outro depois. Aqui não existia um movimento tão forte e tão sólido da forma que existe agora. O Observatório foi criado em julho de 2015 diante de alguns acontecimentos que ocorreram aqui na cidade. Ele foi criado por um grupo de pessoas que estavam presentes na sessão da Câmara na época e, a partir daí, iniciamos os trabalhos. Agora o Observatório já é instituído legalmente, então há algumas ações que nós temos embasamento jurídico para fazer e trabalhar. Hoje nós temos sete pessoas que participam diretamente do Observatório. Precisamos chamar os cidadãos que têm essa vontade de mudar a cidade para também participar. Precisamos que eles participem e que tenham esse compromisso. Pode ser qualquer cidadão. Basta ele ter essa vontade e essa dedicação.

Quando os cidadãos sentiram que poderiam ser decisivos na discussão relacionada ao aumento no número de vereadores?
O movimento "Gatos Pingados" surgiu em uma sessão da Câmara que ocorreu em julho do ano passado. O projeto de lei seria votado com a intenção de ampliar o número de cadeiras de vereadores, de nove para 13. A população acabou ficando um pouco revoltada e um grupo de pessoas foi participar da sessão da Câmara. O projeto acabou sendo aprovado. Na ocasião, um dos vereadores, em meio a todo aquele tumulto, acabou falando que não era para os vereadores levarem o protesto em consideração pela quantidade de pessoas que havia dentro da Câmara porque se tratava apenas de meia dúzia de "gatos pingados". Foi aí que foi criado o movimento. Dos "Gatos Pingados" surgiu o Observatório. Na sessão seguinte, esse grupo de pessoas convocou a população para participar. Colocamos quase 3 mil pessoas na rua e, a partir daí, não paramos mais. Fomos para as ruas para pegar assinaturas. Naquele dia, os vereadores reduziram novamente o número de cadeiras de 13 para nove, um fato inédito! Tudo ocorreu em um intervalo de quase uma semana. Nós também conversamos com os vereadores sobre os subsídios porque eles queriam ampliar o valor dos salários da próxima legislatura. Nós não conseguimos reduzir os vencimentos da forma como nós pretendíamos (R$ 788), mas demos um grande passo para a redução. Em vez de aumentar os salários, eles acabaram cortando os vencimentos de R$ 6,2 mil para R$ 4.340.

Vocês esperavam essa visibilidade nacional?
Para nós, foi uma surpresa. Nós já tínhamos conhecimento da existência de outros movimentos em outras cidades parecidos com o que nós estávamos fazendo. Mas um movimento tão sólido e com uma repercussão tão grande como a nossa... foi tudo uma surpresa. A partir do nosso, nós vimos grandes cidades, inclusive em outros estados, que acabaram seguindo o exemplo. Isso para nós foi muito gratificante, muito importante e é isso que tem que acontecer nos 399 municípios do Paraná e no Brasil como um todo. Algumas cidades passaram a nos pedir informações sobre como iniciar um observatório e até sobre o movimento. A gente tem recebido muitas ligações ainda e muitos e-mails solicitando essas informações. Pessoas de Curitiba, Foz do Iguaçu e Cascavel, por exemplo, entraram em contato.

Como foi para o grupo concorrer ao Prêmio Faz Diferença?
Só pelo fato das outras duas concorrentes serem quem foram, para nós foi muito importante. Isso vai fazer parte da nossa caminhada. A única coisa que nós sabíamos é que realmente o Observatório é importante, mas não sabíamos que outras pessoas também enxergariam dessa forma tão positiva. Nós sabemos que quem fiscaliza até fica em uma situação confortável, mas quem é fiscalizado não. A gente sabe que existem pedras pelo caminho, mas a gente consegue superar todas.

Qual o balanço da atuação do Observatório até o momento?
Desde quando foi criado o movimento, nós fiscalizamos todas as licitações. Nós pegamos os editais e fizemos levantamentos, por exemplo, do que seria comprado pelo município. Com isso, encontramos valores mais baixos. Por conta dessa fiscalização, nós fizemos com que o município economizasse cerca de R$ 200 mil no ano passado. Acredito que a economia nesse ano será bem maior. Sabemos que o nosso município tem muitas necessidades. Acho que nós podemos contribuir bastante com esse Observatório para que sejam oferecidos serviços públicos de boa qualidade à população, para que os recursos públicos sejam bem aplicados. Sabemos que não vamos conseguir resolver tudo, mas nós demos um grande passo em 2015.

Quais serão os próximos passos do grupo?
Acho que 2016 será um ano chave para o nosso trabalho aqui em Jacarezinho. Temos que promover a participação dos cidadãos nas eleições, nesse sentido de ter um olhar diferenciado. A nossa cidade tem aproximadamente 40 mil habitantes. Quando a gente pergunta, muitos não sabem o valor do voto e acabam votando em troca de algum tipo de favor. Eles não sabem o compromisso e a responsabilidade que têm e pagam um preço alto por isso. Nós do Observatório não somos ligados a partidos políticos e estaremos acompanhando todos os passos dos candidatos desde o registro das candidaturas, campanhas, gastos com propagandas, enfim, tudo o que for relacionado aos gastos dentro do município. Para o cidadão, nós vamos orientá-lo para que ele vote de forma consciente e acompanhe depois todo o trabalho que esse determinado político for executar. Nós vamos incentivar e vamos trabalhar em cima disso para que a cidade realmente seja construída de uma forma bem sólida.

O Observatório fiscaliza com isenção? Algum participante pretende se candidatar nas eleições deste ano?
Ninguém do Observatório é impedido de se candidatar, mas nosso objetivo não é a candidatura, não é se promover, não é nada disso. Nosso objetivo é fiscalizar, independente de quem é o vereador, o prefeito e a qual partido ele pertença. Temos lá pessoas que têm as próprias convicções políticas, mas isso não interfere nas nossas ações. Quando o fato envolve a cidade de Jacarezinho, o nosso objetivo é fazer com que a cidade cresça, independente de partidos. Esse é o nosso lema. Nós do Observatório temos a consciência de que não discutiremos pessoas ou partidos políticos.

Como o senhor avalia o cenário político atual?
O ano de 2015 para o Brasil foi o ano de um grande passo. Nunca foi vista no País uma atuação tão forte do Judiciário e da Polícia Federal. Isso para nós é algo muito positivo. A gente não sabe onde essas investigações vão parar. Sabíamos que a corrupção existia, mas não nessa proporção. Quem sabe a gente consegue mudar a forma de pensar da maioria. Afinal, política não é corrupção.

Qual a importância de se estimular a criação de movimentos populares?
As pessoas têm nos procurado para participar do grupo e nós ficamos muito felizes porque elas estão compreendendo o nosso objetivo. Acho que não temos outro caminho, a não ser esse de fazer o acompanhamento e participar das decisões. Nós não generalizamos todos os políticos, sabemos que existem pessoas boas e pessoas mal intencionadas. Mas, independente de uma coisa ou de outra, o Observatório vem para agregar, para somar e para que as pessoas tenham um olhar mais firme sobre a política local. Nós agora estamos bem fortalecidos.

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