MOBILIZAÇÃO - 'Temos uma esquerda no poder que não disse a que veio'
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domingo, 04 de janeiro de 2015
Mariana Franco Ramos <br>Reportagem Local 
Curitiba Com a recondução de Dilma Rousseff (PT) à Presidência da República, centrais sindicais, líderes de movimentos sociais e partidos como Psol, PCdoB e PSTU, além de setores descontentes do próprio PT, já começaram a articular a criação de uma frente nacional de esquerda, vislumbrando a realização de uma série de manifestações em 2015. O objetivo do movimento, que a princípio não possui caráter oficial, é buscar forças para se contrapor ao avanço de grupos considerados conservadores e neoliberais, tanto nas ruas, como no Congresso Nacional e nas diferentes esferas de governo.
Candidato derrotado ao Palácio Iguaçu e um dos fundadores do Psol no Paraná, o sociólogo Bernardo Pilotto critica, nesta entrevista à FOLHA, a recente adoção de medidas impopulares por Dilma. Segundo ele, a "retirada de direitos" até era esperada, mas não de forma tão "rápida e forte". Pilotto também avalia que o momento é propício para construir uma nova oposição, que não esteja alinhada nem ao PT, nem ao PSDB.
FOLHA - Como está a movimentação no País e, especialmente, no Paraná, para a criação desta frente nacional de esquerda?
Pilotto No Paraná, nós iniciamos uma articulação em Curitiba, no começo de dezembro, em defesa do que a gente chamou de reforma popular. Seriam as tais "reformas de base": agrária, tributária progressiva e urbana. Num primeiro momento, tanto em São Paulo como aqui e em outros lugares, foram instituídas frentes para pressionar o governo a implementar medidas que, de alguma maneira, apareceram na campanha da Dilma, mas que foram deixadas de lado. O que a gente está vendo agora é a retirada de direitos, como com essas medidas provisórias que mudam o acesso ao seguro-desemprego e dificultam a vida de quem recebia pensão (por morte).
Quem já está se organizando e o que esse grupo pode fazer concretamente?
Pilotto Setores do PT descontentes com os rumos do governo, movimentos sociais, estudantis e populares. Não é um formato exatamente novo. O que existe de diferente é em São Paulo, onde o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) assumiu um protagonismo que não tinha alguns anos atrás. Agora, existem muitas indefinições ainda, porque além do governo federal, há os municipais e os estaduais. São Paulo, por exemplo, aumentou a tarifa de ônibus de R$ 3 para R$ 3,50. Esses setores que estão pressionando a Dilma vão criticar também o (prefeito Fernando) Haddad (PT)? Temos dúvidas. Aqui no Paraná, o (governador) Beto Richa (PSDB) apresentou o "tarifaço" e vários segmentos condenaram. Mas eles fizeram o mesmo quando o (Gustavo) Fruet (PDT, prefeito da capital) propôs medidas semelhantes? O desafio é constituir uma frente que implemente reformas populares independentemente de quem está no poder.
Além da "retirada de direitos" por parte do governo federal, o que motivou essa articulação?
Pilotto Também o fato de que vários segmentos mais conservadores da política vêm se mobilizando. Houve, especialmente em São Paulo, algumas passeatas relativamente grandes de setores reivindicando até a volta da Ditadura, o impeachment da Dilma, ou mesmo colocando que o governo federal é bolivariano. Na verdade, a gente tem um governo que está seguindo a cartilha liberal. Não tem nada de bolivariano em você mudar o acesso ao seguro-desemprego. Muito pelo contrário. Precisamos pressionar à esquerda, e não à direita, ir para as ruas e mostrar nossas críticas. Inclusive a direita não tem por que estar insatisfeita. Não há nada que a Dilma tenha feito até agora que possa de fato desagradar a direita. O Aécio (Neves, candidato derrotado à Presidência pelo PSDB) nomearia o (Joaquim) Levy para o Ministério da Fazenda e a Kátia Abreu para a Agricultura tranquilamente, sem nenhum problema. E aposto que PSDB, DEM e PPS vão votar a favor da MP (do seguro-desemprego) quando ela for ao Congresso. Essa ideia de que temos de aparecer mais surgiu pelo fato de a direita estar nas ruas.
Por que as pautas ditas conservadoras ganharam tanto espaço?
Pilotto Temos uma esquerda que não disse a que veio. Quando a (senadora e ex-ministra da Casa Civil) Gleisi (Hoffmann) fala que no Paraná não tem indígena, o latifundiário pensa o seguinte: "Se a ministra do PT está falando isso, eu estou liberado para barbarizar em cima dos indígenas". Quando a Dilma tira direitos dos trabalhadores, o que o Beto Richa pensa? "Se o PT está tirando direitos dos trabalhadores, eu estou liberado para taxar inativo e meter 'tarifaço'". Então, se você tem uma esquerda ou centro-esquerda no poder e ela não impõe as pautas para as quais foi eleita, a direita volta a se assanhar. O que acontece com a Dilma também acontece na Europa, especialmente na França e na Espanha, onde há segmentos de ultradireita se mobilizando. A direita se sente à vontade de voltar a pedir coisas que pareciam absurdas, que nós já tínhamos superado na nossa história.
Em junho de 2013 houve, de certa forma, uma apropriação dos protestos pela direita. Vários candidatos e partidos, até mesmo menores, como o PRTB, chegaram a dizer que representavam as vozes das ruas. Como evitar que isso ocorra novamente?
Pilotto É preciso estar junto dos movimentos. É dessa forma que vamos disputar a referência desses protestos. O PRTB não tem condições de cumprir aquela pauta. As pessoas estavam nas ruas gritando "fora, Feliciano", pedindo tarifa zero no transporte e o fim da corrupção. Nós sabemos que a direita não vai implementar medidas que vão na raiz da corrupção, como o (veto ao) financiamento empresarial de campanha. As pautas de junho são tradicionalmente ligadas aos segmentos de esquerda da sociedade. Só que, como a gente tem o PT no governo, acontece essa confusão. Eu fui às ruas em 2002 pedir a eleição do (ex-presidente) Lula. Mas quem é jovem hoje tinha dez ou oito anos quando ele ganhou. Não tem no PT uma referência de esquerda. Enxerga o PT como mais do mesmo. A falta de uma alternativa mais concreta, mais crível no campo da esquerda, dificulta a nossa atuação.
Podemos esperar um 2015 de muitas manifestações, talvez até mais do que tivemos em junho de 2013?
Pilotto Espero que sim. Está bem claro que vamos ter muitas greves e movimentações setorizadas. De dezembro para cá já ocorreram algumas paralisações de trabalhadores que não receberam 13º salário e tiveram direitos cortados. Se isso vai se transformar numa grande movimentação conjunta, com aquele caráter mais autonomista de junho de 2013, ainda não está claro. Determinante vão ser as lutas pelo transporte agora em São Paulo. O aumento da tarifa é muito grande. A possibilidade de termos manifestações maiores espalhadas pelo País de novo depende de como vão se colocar as relações de força nessa luta. Mas independentemente de haver ou não mobilizações mais autônomas, com certeza 2015 será de muitas lutas.
O Psol se manteve neutro no segundo turno, mas pediu nenhum voto em Aécio, o que, naturalmente, até pelo histórico do partido, levou muitos de seus correligionários e apoiadores a votar na Dilma. Os primeiros atos tomados pela presidente depois de eleita foram uma decepção, uma surpresa, ou essa atuação já era esperada?
Pilotto É uma decepção no sentido de que foi mais rápido do que a gente esperava e mais forte. Em alguns momentos, o governo parecia disfarçar. Mas isso vindo da Dilma tem uma importância. Se fosse o Aécio, todos os setores mais petistas estariam falando: "Nós não faríamos isso", "nós somos diferentes". O PT na oposição quer manter o discurso hipócrita de que ainda é um partido de defesa dos direitos dos trabalhadores. Já no governo está mostrando o quanto ele é parecido com o PSDB. Isso tudo é importante para que haja uma reorganização de forças de esquerda.


