A decisão do governador de Minas Gerais, Itamar Franco, em apoiar a candidatura do deputado tucano, Aécio Neves, ao governo do Estado, dá mostras de quanto a política partidária brasileira necessita, com urgência, passar por um amplo processo de reciclagem. Sem dúvida que são poucos os países onde a legislação é tão branda como no Brasil e que acaba favorecendo sobremaneira as articulações de cúpulas. O exemplo mineiro é primoroso: Itamar Franco deixa o PMDB por discordar da candidatura de seu vice, Newton Cardoso, e declara apoio ao deputado Aécio Neves, do PSDB. Este, por sua vez, que apóia o tucano José Serra para presidente da República – enquanto Itamar embarca na candidatura do petista Luis Inácio Lula da Silva – quer a companhia do deputado pefelista, Roberto Brant, cujo partido sinaliza para Ciro Gomes, do PPS. Newtão, como é conhecido nas alterosas, que deveria apoiar Serra por força de uma coligação nacional, é simpático ao nome de Anthony Garotinho, do PSB. Do imbróglio ainda sobram as rebarbas do acordo envolvendo o Partido Liberal, cuja figura de proa, o senador José Alencar, será candidato à vice-presidente na chapa de Lula – com aval de Itamar – enquanto outra ala, com a chancela da Igreja Universal, resiste e insiste em apoiar o socialista Garotinho.
Em São Paulo, o ex-governador Orestes Quércia troca jura de amores com o PT e apóia Lula, de quem disse um dia que era ‘‘incapaz de administrar um carrinho de pipoca’’. Neste sincretismo político-partidário-religioso-eleitoral o que está em jogo é um patrimônio inestimável chamado voto. O difícil é conseguir explicar ao eleitor como é possível unir no mesmo balaio figuras tão díspares ou tentar justificar o que une um partido a outro.
Por estas terras de Pindorama os partidos são meros instrumentos para viabilizar interesses de grupos políticos. Houve um tempo em que ainda se fazia um mise-en-scSne para dar a sensação que tudo era verdadeiro. O povão era chamado a comparecer, ouvia inflamados discursos, batia palmas, recebia abraços e apertos de mão e depois, quando tudo estava legalizado, era dispensado até as próximas eleições. Sua função era servir de massa de manobra.
Nos dias atuais, há partidos que só convocam os membros da comissão executiva e ao redor de uma mesa tomam as decisões em nome da tigrada. Escolhem os candidatos, descartam outros, definem coligações, como se tudo fosse um clube de amigos reunidos no boteco da esquina para decidir quem irá jogar na pelada do próximo domingo.
Ninguém exige que os partidos sejam constituídos por um bando de vestais. A busca pelo poder é, em todo o mundo, da natureza do jogo e a essência da democracia é justamente possibilitar a alternância de comando no poder. No entanto é preciso que existam algumas regras mínimas para serem observadas e cumpridas. Uma das mais importantes – tão ou mais que a fidelidade partidária – é a definição de normas claras para o financiamento das campanhas.
Qualquer brasileiro tem consciência que uma eleição, seja ela a qualquer instância da vida pública, tem um custo muito acima dos proventos legais ao longo de todo o mandato. Ora, o que levaria um cidadão a se candidatar, gastando recursos de seu próprio bolso para não receber sequer ao equivalente? A demonstração de civismo dava-se à época que os vereadores não recebiam absolutamente nada para exercerem seus mandatos em cidades do interior. A maioria dos políticos acaba reféns de grupos econômicos e assumem compromissos na defesa dos seus interesses, recebendo em troca financiamentos de campanhas capazes de garantir a manutenção do status-quo.
O ponto crucial da discussão é que qualquer consulta aos parlamentares que compõe o Congresso Nacional mostra que a quase totalidade é favorável às transformações, porém na prática pouco ou nada fazem para implementá-las. Neste caso, o espírito de corpo acaba prevalecendo e a sobrevivência coletiva torna-se um argumento mais que razoável para que haja um consenso generalizado. Daí, é melhor deixar como está.
RENÉ RUSCHEL é jornalista

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