Durante o ano todo, sempre que possível, as pessoas se reúnem para almoços festivos e jantares comemorativos, com a intenção de compartilhar bons momentos. Contudo, mais um período chega ao fim e, com as exigências e obrigações relacionadas às festas de Natal e Ano Novo, a harmonia possível parece desmoronar. O Natal, uma reunião caracteristicamente familiar, torna-se, em geral, o maior pomo de discórdia. ''Vamos passar com seus pais ou com os meus?'' transforma-se na pergunta crucial entre os casais, capaz de detonar um angustiante conflito.
É dessa forma que a psicóloga Patrícia Helena Napolitano Ramos, especializada em aconselhamento familiar, analisa o ''clima'' da época. O oposto, segundo ela, também ocorre. ''Os casais se desentendem o ano inteiro e, só porque é Natal, sentem-se obrigados a estar bem''. O resultado desse esforço é que o que vai sendo represado, em termos emocionais, acaba ''estourando'' em detalhes: a ceia que atrasou, o presente que está difícil de encontrar ou caro demais...
Cobrança vira a palavra de ordem. Cobra-se tudo de todos, desde o dar presentes e preparar a ceia, até o fato de o participante das reuniões familiares ter de se mostrar alegre e confortavelmente integrado. ''A pressão social e o mito em torno da festa são muito grandes'', afirma Patrícia.
O pior é que, em geral, há muita tristeza no ar. Sempre há perdas a contabilizar e lembranças da infância, em que o Natal inspirava alegres fantasias e mágicas emoções. ''Mas isso muda, todos crescemos, viramos adultos, e a festa se torna algo diferente'', diz ela.
''Por que não se propor a estar bem, em paz, e com a alegria possível, independentemente do lugar onde esteja ou das transformações que a festa tenha sofrido?'', pergunta Patrícia. Encarar a inevitável reunião como um programa como outro qualquer, estimulando-nos a aproveitá-la, porque vai nos fazer bem, é outra alternativa saudável.
A psicóloga lembra que as pessoas se esquecem de que o ter é imediatista, traz um prazer que se esgota em si mesmo, enquanto o ser, que depende do cuidado e do afeto constantes, traz uma satisfação duradoura. Por isso, diz ela, as festas de fim de ano podem se tornar um momento inspirador para reconstruir relações, reencontrar pessoas e até para gestos de solidariedade, como ''adotar'' amigos e conhecidos que estejam sós, convidando-os a partilhar a festa.

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