MITO DA DOR - 'Parto humanizado como deveria ser não existe'
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de junho de 2009
Mie Francine Chiba<br>Especial para a FOLHA 
A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza uma redução do número de partos por cesariana para 15%. Estima-se hoje que esse número chegue a 40%. Por isso, o governo estimula hospitais a realizar o parto normal humanizado.
Conforme o médico ginecologista, Osmar Henriques, chefe do departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), para que isso aconteça é preciso deixar de ignorar o fato de que parto normal dói e instaurar medidas na saúde pública para conter a dor nesses procedimentos.
Existe parto humanizado no Brasil?
Existe. Maternidades já ganharam prêmios por isso, só que o parto humanizado como ele deveria ser não existe. A mulher pode ficar à vontade na maternidade, pode caminhar, tem direito a duchas relaxantes, faz exercícios às vezes acompanhados por fisioterapeutas, tem direito a não fazer lavagem intestinal antes do parto, de não fazer o corte para facilitar a saída do bebê - chamado episiotomia -, e tem direito a um acompanhante. Mas, normalmente não se faz anestesia nas pacientes que são internadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Parto humanizado é conforto, é humano, e para mim, é desumano deixar alguém sentir dor quando há condições de tirá-la.
Parto dói e deve ser feita alguma coisa para aliviar. Se você fizer uma avaliação em maternidades do Brasil em salas de parto, vai verificar que existe o mito de que o parto não dói. Mas quando uma criança é expulsa do canal de parto, ela distende o canal vaginal, o colo e o segmento uterino. O períneo fica extremamente tenso e, às vezes, rompem-se algumas fibras musculares para dar passagem à cabeça do bebê. Se por acaso fosse o homem que parisse, todos os partos teriam anestesia.
A dor no parto ainda é bastante mistificada no Brasil?
Talvez se encontre mais no passado, mas ainda há casais que têm receio de tirar a dor do parto por ser uma coisa mística. Isso vem da própria Bíblia: ''Parirás com dor''. E às vezes, isso faz com que a mulher sinta que o amor que ela sente pelo filho é o fato dela ter sentido dor para parir, e isso é um mito.
Por que nos hospitais públicos brasileiros ainda se aceita a dor no parto normal?
Primeiro porque um trabalho de parto pode durar em média, no primeiro filho, de seis até 12 horas. E essa mulher, para ficar anestesiada esse tempo todo, precisa de um anestesista ao lado. O custo operacional disso é bastante alto. No Hospital Universitário (HU) não há anestesistas disponíveis nem para rotina, quanto mais para a maternidade. Então, é mais barato se trabalhar a dor como um fato psicológico do que como fato real, porque custa mais barato fazer a psicoprofilaxia do parto.
A meta da Organização Mundial de Saúde (OMS) de reduzir os partos por cesariana, nesse caso, é inválida?
O que se alega é que a mortalidade materna é maior em pacientes que fazem cesarianas. Esta cirurgia hoje é extremamente segura. Um parto normal tem um custo muito baixo para o governo, e eu tenho receio de que essa preocupação em aumentar o número de partos normais seja também uma questão financeira. Se todo parto fosse feito por cesariana, isso traria uma demanda muito grande de serviços, de maternidades, de equipes cirúrgicas. A recuperação no parto normal é 80% mais rápida do que na cesariana. É importante que se frise isso. Mas estamos focando o período em que a paciente está com dor. Defendo o direito dela escolher demorar mais para se recuperar e aceitar as condições de uma intervenção. Isso é parto humanizado. Mas não quero dizer que o médico deve se omitir. O casal deve ser orientado de que há prós e contras em qualquer escolha.
Se houvesse analgesia, a mulher teria mais liberdade de escolha?
Sem dúvida. Se houvesse analgesia disponível para todas as mulheres, teríamos uma queda do índice de cesáreas, porque aquela que faz por medo da dor, não faria. Ela teria garantia de analgesia e de bem-estar no parto normal.
Em quanto tempo haverá parto humanizado como um todo no Brasil?
A partir do momento em que a saúde for levada a sério. Não se pode parar para considerar o que é doença e o que não é para se tomar uma atitude. Por exemplo, o SUS não cobre a reprodução assistida por considerar que não se trata de doença. Mas é. Está no Código Internacional de Doenças (CID). Os casais que podem pagar vão para as clínicas e fazem, e isso também acontece com a analgesia de parto. Se paga, faz; se não paga, não faz.


