Mistérios da vereança - Egidio Brizola
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de setembro de 1997
Egidio Brizola 
A vereadora Elza Correia está pilotando uma consulta a moradores da área da Concha Acústica, no centro de Londrina, para descobrir o que eles acham da extinção do chamado Zerinho, dentro do Bosque. O fim do logradouro, pensado pela prefeitura, possibilitaria a reintegração da Rua Piauí no pedaço. Estão votando contra: o Zerinho não pode acabar porque é área de caminhadas diárias sem risco de atropelamento de carros.
O surpreendente está aqui: um vereador tomar essa iniciativa. Geralmente, a ação pública é desenvolvida independentemente da vontade popular. Povo é povo, que fique no seu lugar. Vereador é vereador, que legisle conforme pense. A organização dos projetos é feita nos gabinetes, orientada pela conveniência misteriosa e pelos interesses de grupos que normalmente os legisladores representam - econômicos, políticos, religiosos.
É claro que a pesquisa de Elza pode indicar pão e a prefeitura entender queijo, derrubar as grades do lugar e liberar o tráfego, dando uma banana para quem for contra. Mesmo assim, a vereadora terá exercido seu papel de meio-campo da comunidade, tentando descobrir o que o povo quer. Isso sempre foi muito raro em qualquer momento da história.
Outra raridade que merece ser apontada: o vereador Jorge Scaff fez um projeto isentando do pagamento da abominável taxa da Zona Azul todos os moradores da área da Concha. Embora não se tenha mais ouvido falar do projeto, pelo menos o vereador também tentou. Não é justo que o morador, que entra e sai do local a toda hora, tenha que arcar com o pagamento para estacionar seu carro. Este projeto precisa virar lei.
Mais do que não acabar com o Zerinho, o prefeito Antonio Belinati deveria até dar curso à sua promessa de campanha de transformar a bifurcação da Rua Piauí em torno da Concha Acústica (Praça Primeiro de Maio) em um novo calçadão. Ficaria muito melhor do que está. Esta idéia precisa virar lei.
Dois outros projetos chamam a atenção na Câmara de Londrina, cada qual pelo que pode indicar - e pelo que evidentemente possa escamotear. O primeiro é do presidente, major Adalberto, que quer cadeiras para supergordos como ele em cinemas, teatros e outros endereços. Em toda a história do Legislativo brasileiro, ninguém nunca havia legislado tão apropriada e abundantemente em causa própria como neste caso. Mas o vereador está certo.
Adalberto deve ter ficado entre a espada e o precipício - fazer ele mesmo ou transferir a iniciativa a um de seus pares. Mas se um magrinho (e todos o são perto do chefe) entrasse com o projeto, inevitavelmente seria alvo de gozações. No mínimo, diriam que o nobre colega estaria a serviço do forte presidente por um motivo muito... pessoal. Calculada que a bizarrice teria o mesmo tamanho de manequim, Adalberto optou pelo sigo comigo próprio para tentar contornar o grande problema de sua própria excelência. Que vire lei.
O outro projeto não é curioso - é escandaloso pelo que pressupõe. O vereador Célio Guergoleto, ex-presidente da Casa, pede corajosamente o perdão do IPTU devido à prefeitura pelo Shopping Catuaí de Londrina, e a sua futura isenção. O Catuaí, que nunca revela o quanto, fatura muito, é o mais rico e sofisticado da cidade - e um dos mais chiques do Sul do Mundo.
Como é que é? A prefeitura não vive em crise permanente, tendo que empinar papagaios todos os meses para pagar o espantoso número de funcionários (mais do que Paris? Ora, Paris!). Então, como é que poderia se dar ao luxo de perdoar R$ 1,5 milhão que o centro de compras deve - e abrir mão do que será devido nos próximos anos? Este projeto, já tentado na administração anterior, não pode virar lei.
O pequeno merceeiro, que paga direitinho o seu imposto, não consegue compreender nem um naco desses mistérios da vereança. No caso, só sabe que se deixar de recolher o seu IPTU, ferra-se na dívida ativa com juros, multas e correção monetária, enguiça com o fiscal, vai para o Seproc, para o Serasa, perde a casa e o negócio, suja o nome, perde a honra, pode ser condenado e ir para a cadeia. Ele paga, porque ficaria envergonhado se não cumprisse suas obrigações de cidadão.
E vergonha é a herança maior que seu pai lhe deixou.


