Dia destes ouvi muito ao longe, como se ecoasse num sonho assombrado por reminiscências da infância, o cantar de um galo. Contraste com o urbano de asfalto e prédios, de trânsito e violência, aquela sonoridade foi acalanto que momentaneamente amorteceu os impactos da vida sofridos entre uma esperança e outra.
Percebi, então, com a nitidez que só os olhos do espírito possuem, que o canto do galo é evocação estranha de não sei qual momento do passado. Vem envolto em brumas do amanhecer para anunciar o dia, onde nunca sabemos o que sucederá. Tem uma intimidade esse som com quintais cheios de ciscares, de romãs pendendo de galhos para oferecer sua beleza rubra e apetitosa, de jabuticabeiras que serpenteiam por troncos retorcidos os negrores adocicados de suas uvas tropicais!
De novo cantou o galo em lonjuras que minhas sensações alcançaram. No sol que se elevava do horizonte, aquela melodia combinou com uma expectativa alegre, um desabrochar de esperança desenhada nos labirintos do existir. Reconforto. Aconchego. Rede balançando. Cafuné. Risos perdidos no tempo das travessuras. Renascimento. Era isso que vinha marulhando pelo vento da aurora. Uma ternura estridente se expandia naquele ondear sonoro. Um chamamento para o mundo acordar. O galo, pensei, é o arauto da existência.
Nesta véspera de Natal, quando o verdadeiro conteúdo da comemoração se esvai, veio-me também, numa associação de idéias, a Missa do Galo. Por que do galo? Coisa estranha, não saberia responder. A explicação não existe em nenhuma liturgia e muito menos na Bíblia. Qual bispo teria batizado desse modo a missa, que no passado era celebrada à meia-noite com a solenidade de um ritual falado em latim?
Naquele tempo, que nem tão longe está, as mulheres cobriam a cabeça com véus rendados, o que as tornava bonitas e vaporosas para combinar com os mistérios do ritual. As casadas usavam mantilhas pretas, e as solteiras, brancas. Era um sinal de respeito ao local sagrado. Em algumas catedrais a música que vinha do órgão com toda a pompa desse instrumento, intercalava-se com a angelical melodia dos corais, que subia ao céus em espirais para louvar a Deus.
Depois da Missa do Galo, a ceia com torta de frutas de sobremesa, o abrir dos presentes, a confraternização familiar. No presépio, o nascimento do Menino Jesus finalmente colocado na manjedoura entre Maria e José, em meio aos pastores e aos bichinhos de massa que olhavam espantados a estrela de papel dourado equilibrada por sobre a gruta.
Não creio que se façam mais missas do Galo como as de minha meninice. Parece que sequer se chamam mais assim. Também não são celebradas à meia-noite mas bem antes, pois há pressa para a ceia ou para a ida a algum baile. Agora é cada vez mais difícil distinguir Natal de Réveillon, o que indica que o aniversariante anda um tanto esquecido. Portanto, prevalece a festa profana sobre o ritual natalino, modifica-se a tradição para nela incorporar novos elementos, e a liturgia alterada não favorece mais a introspecção que coloca o homem diante da divindade para com ela conversar.
Isto é natural? Sim, na medida em que nada permanece para sempre. Afinal, costumes, valores e comportamentos estão sempre se modificando no dinamismo das sociedades. Isso é salutar? Claro que é. Toda renovação é necessária, e faz parte, inclusive, da natureza que se reproduz através dos seus intermináveis ciclos. O próprio simbolismo do nascimento de Jesus significa mudança baseada na salvação, o descortinar de novos tempos, a esperança da redenção.
Algo parecido está implícito em todos os nascimentos, sempre comemorados com a alegria que vem da novidade, da idéia da perpetuação da espécie, do júbilo do recomeço da vida sobre a terra.
Entretanto, há elementos nas tradições que, se extraviados, fazem com que elas se desfigurem e desapareçam. Pois, bem, nesse Natal há algo estranho, como se perdida estivesse não só certo tipo de celebração como comportamentos e valores havidos em anos anteriores. Nem sequer sinto no ar aquele clima inconfundível, que envolvia as pessoas através de elos de solidariedade para tornar as atitudes mais amenas. Para falar a verdade, até Papai Noel está ficando cansativo. Há um em cada esquina, em cada loja, tentando vender. Uma inversão do Natal, diria ironicamente, pois Papai Noel deveria distribuir presentes e não vender mercadorias.
Estes pensamentos muito meus, e que podem não ser compartilhados com quem lê neste instante estas linhas, talvez possam ter outra explicação: não houve perda das tradições. Errada sou eu que não sei mais brincar, pois é sabido que Natal é, definitivamente, uma festa de crianças. Não consigo ouvir os sinos que sempre me encantaram. Não capto a magia da Noite Feliz. Não estou vendo as milhares de pequenas lâmpadas chinesas que enfeitam prédios e casas. Não escuto as músicas natalinas. Só de memória consigo cantarolar: ‘‘Papai Noel, vê se você tem a felicidade para me dar.’’ Em vão busco, à meia-noite, a Missa do Galo que não existe mais. Onde foi parar isto tudo?
Depois de muito esforço, de vagar por entre recordações e nostalgias, concluo que há um lugar seguro onde posso sempre encontrar o Natal. Basta seguir a estrela e olhar para a manjedoura. Ele está lá. Para que mais?
Mais um vez cantou o galo. Lembrei-me, então, de outro episódio ocorrido próximo do suplício de Jesus, quando Pedro falou: ‘‘Senhor, estou pronto para ir contigo, tanto para a prisão, como para morte.’’ Mas Jesus lhe disse: ‘‘Afirmo-te, Pedro, que hoje três vezes negarás que me conheces, antes que o galo cante.’’ Assim aconteceu e Pedro chorou arrependido.
Então, pensei: não posso trair o Natal. Tenho sempre que reinventá-lo com as possibilidades da fé e com a beleza da esperança, porque o Natal está dentro da gente e não fora.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora em Londrina
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